O insustentável peso da opressão

"Manifestantes celebram a saída de Mubarak". Foto: AFP

Se 11 de setembro marcou o início da era do terror (como bem argumenta Eric Hobsbawn na coletânea de ensaios "Globalização, Democracia e Terrorismo"), 11 de Fevereiro marca o início da era da razão política no mundo árabe.

Os jornais noticiam que bastaram 18 dias para a população egípcia derrubar Mubarak e revolucionar a política no país. Mas, calma lá. As coisas não são tão simples assim. A crise política norte-africana é reflexo de um longo processo de colonização e intimidação, somado a uma grande mudança provocada pelos efeitos nefastos do neoliberalismo, que resultou em mudanças no mercado e na natureza da força-trabalho, como o fim do sistema salarial clássico e a desocupação mortífera e precarização da massa. Desse cenário, a juventude (força-trabalho cognitica) surge hoje como a verdadeira classe trabalhadora do pós-industrial. E como ressalta Antonio Negri: "porque é força-trabalho cognitiva, esta juventude não é impotente; antes, tem os meios de superar essa frustração que tem paralisado os estamentos mais pobres e antigos da população. A cultura da impotência foi quebrada com a força das ruas".

Precisamos compreender (ou ao menos tentar compreender) a complexa dimensão desse momento político-social. 

Como alerta Taliq Ali - um importante intelectual paquistanês -, a história árabe, apesar das aparências, não é estática. Vale a pena ler suas reflexões sobre esse momento histórico no Egito:

Uma noite alegre no Cairo. Que felicidade estar vivo, ser egípcio e árabe. Na Praça Tahrir estão a cantar: "O Egipto está livre" e "Vencemos!" 

A remoção de Mubarak por si só (e levando o grosso dos seus US$40 mil milhões saqueados do tesouro nacional), sem quaisquer outras reformas, seria considerada na região e no Egipto como um enorme triunfo político. Isto colocará novas forças em movimento. Uma nação que testemunhou milagres de mobilizações de massa e uma enorme ascensão na consciência política popular não será fácil de esmagar, como o demonstra a Tunísia. 

A história árabe, apesar das aparências, não é estática. Logo após a vitória israelense de 1967 que assinalou a derrota do nacionalismo secular árabe, um dos grandes poetas árabes, Nizar Qabbani, escreveu:

Crianças árabes, 
Grãos de milho do futuro, 
Vocês romperão nossas cadeias. 
Matem o ópio nas nossas cabeças, 
Matem as ilusões. 
Crianças árabes, 
Não leiam acerca da nossa geração sufocada, 
Somos um caso sem esperança, 
Tão sem valor quanto uma casca de melão. 
Não leiam acerca de nós, 
Não nos macaqueiem, 
Não nos aceitem, 
Não aceitem nossas ideias, 
Somos uma nação de vigaristas e trapaceiros. 
Crianças árabes, 
Chuva da Primavera, 
Grãos de milho do futuro, 
Vocês são a geração que ultrapassará a derrota.
Quão feliz ele teria sido se visse a sua profecia ser cumprida. 

A nova onda de oposição em massa aconteceu num momento em que não há partidos nacionalistas radicais no mundo árabe, e isto ditou as tácticas: enormes assembleia em espaços simbólicos que colocam um desafio imediato à autoridade – como que a dizer, estamos a mostrar nossa força, não queremos testá-la porque não estamos organizados nem preparados para isso, mas se você nos picar recorde que o mundo está a observar. 

Esta dependência da opinião pública global está a mudar, mas também é um sinal de fraqueza. Tivesse Obama e o Pentágono ordenado ao exército egípcio que limpasse a praça – ainda que a alto custo – os generais provavelmente teriam obedecido às ordens, mas teria sido uma operação extremamente arriscada para eles, se não para Obama. Isto poderia ter dividido o alto comando dos soldados comuns e oficiais júnior, muitos do quais têm parentes e famílias a manifestarem-se e muitos do quais sabem e sentem que as massas estão do lado certo. Isso teria significado um levantamento revolucionário de uma espécie que nem Washington nem a Irmandade Muçulmana – o partido do cálculo frio – desejavam. 

A demonstração de força popular foi suficiente para despedir o actual ditador. Ele só ia se os EUA decidissem tirá-lo. Depois de muita hesitação, ele fez isso. Eles não tinham qualquer outra opção séria. A vitória, contudo, pertence ao povo egípcio cuja coragem e sacrifícios infindáveis tornaram tudo isto possível. 

E assim isso acabou mal para Mubarak e o seu homem de confiança. Tendo lançado bandidos da segurança só há quinze dias atrás, o fracasso do vice-presidente Suleiman para desalojar os manifestantes da praça foi mais um prego no caixão. A maré ascendente das massas egípcias, com trabalhadores entrando em greve, juízes a manifestarem-se nas ruas e a ameaça de multidões ainda maiores na semana seguinte, tornou impossível para Washington suportarem Mubarak e seus cúmplices. O homem a que Hillary Clinton se referiu como sendo um amigo leal, na verdade "família", foi jogado no lixo. Os EUA decidiram cortar as suas perdas e autorizaram a intervenção militar. 

Omar Suleiman, um velho favorito do Ocidente, foi seleccionado por Washington como vice-presidente, endossado pela UE, para supervisionar uma "transição ordeira". Suleiman sempre foi encarado pelo povo como um torturados brutal e corrupto, um homem que não só dá ordens como também participa no processo. Um documento da WikiLeaks contem um antigo embaixador dos EUA a louvá-lo por não ser "melindroso". O novo vice-presidente advertiu as multidões de manifestantes terça-feira passada que se não se desmobilizassem voluntariamente o exército estava à espera: um golpe podia ser a única opção restante. Foi ela, mas contra o ditador que eles haviam apoiado durante 30 anos. Era o único meio de estabilizar o país. Dali não podia haver retorno à "normalidade". 

A era da razão política está a retornar ao mundo árabe. Os povos estão fartos de serem colonizados e intimidados. Enquanto isso, a temperatura política está a subir na Jordânia, Argélia e Iémen.

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