A amarga morte de um amigo

A vida é cheia de comédias e tragédias, não é mesmo? E engraçado como, às vezes, as piores notícias chegam nos dias mais belos.

Hoje amanheci feliz. Mas não só eu. Irradia um aconchegante sol num raro céu azul aqui em São Paulo, motivo suficiente para alegrar qualquer paulistano.

Na cozinha, ao tomar o primeiro gole de café, liguei para meu pai para dar os parabéns pelo seu aniversário. Hoje ele faz 46 anos (é um pai jovem - o que facilita nossa compreensão mútua e amizade). Ao atender, me respondeu em voz baixa: - "Tô numa reunião, já te ligo!"

Depois de alguns minutos, quando já saboreava um pão com requeijão e mortadela ao lado da Priscila e do Michel, ele me retornou a ligação. Dei os parabéns e, após algumas conversas rápidas sobre temas do cotidiano, recebi uma notícia que fez o café ficar mais amargo.

- "Rafa, você conhecia o Juliano?"
- "Que Juliano?"
- "O Juliano, o Juli."
- "Claro, super amigo nosso."
- "Então, o Renan me ligou hoje de manhã do Havaí e me contou que ele morreu eletrocutado ontem a noite."
- "Caramba! Como assim?"
- "Uma coisa besta. Ele estava cortando a grama e um fio desencapado encostou numa poça d'água."
- "Nossa..."
- "Pois é. O Renan e a Leli já choraram um monte. Todo o pessoal da UFPR tá super triste."
- "Imagino. O cara era super querido lá. Muito pra cima, deixava todo mundo animado por onde passava."
- "Sua mãe também não estava sabendo. Ela está em Santa Catarina e com esse lance de pagar deslocamento acabou por ignorar todas as ligações do litoral. Quando ficou sabendo hoje, ficou horrorizada."
- "Claro. Eles trabalhavam juntos."
- "O Juli não era aluno?"
- "Não, ele era servidor da UFPR. Além disso, era árbitro em competições oficiais de surf do litoral. Era querido por todos lá."
- "Hum. O Renan me disse que o Juli foi pivô do namoro dele com a Leli. Ele que apresentou a Leli pro Renan, algo assim, não foi?"
- "Foi sim. Ele levou a Leli numa festa lá na casa da mãe. Foi uma noite louca. A gente se divertiu muito."
- "O Renan tá arrasado. Mas eu disse pra ele uma coisa que é certa. Deus colhe as mais belas flores para seu jardim lá em cima. Se o Juli era tão querido e gente boa, então o cara lá de cima tava precisando dele pra dar uma alegrada no local. Era a hora dele partir."
- "É...pode ser...mas, enfim..que coisa chata, pai."

Depois disso, não falamos mais do Juliano. Não queria que a conversa de parabéns se estendesse nesse clima pesado de morte. Desliguei o telefone e repassei a notícia ao pessoal da mesa, que obviamente tinha acompanhado toda minha fala no celular e sabia do que se tratava.

Terminamos o café falando do Juli e de que como ele era engraçado, criativo, cheio de gírias inéditas ("e aí? no tornado?"), danças hilárias e espírito zombeteiro.


Tive com ele uma amizade de quatro anos, iniciada precisamente em Janeiro de 2007 em Caiobá. Ele era um dos primeiros funcionários do campus Litoral da UFPR. Sujeito conhecido por todos os estudantes (como meu irmão) e professores (minha mãe). Ele era um "irmão mais velho da galera", sempre pronto pruma festa - e quantas foram as festas em que ele fazia todo mundo rir com as histórias de sua juventude hardcore em Curitiba ou mesmo suas danças bizarras.

Pra um grande número de membros da UFPR, como meu irmão e o William "Corvo", ele foi um ídolo. Era sempre imitado, sempre citado nas rodas.

Não demorou muito pra ele ficar conhecido também em Maringá, cidade que visitou algumas vezes. Por diversas vezes, nas festas na extinta chácara do Braguinha (Guilherme Costa), todo mundo parava e fazia a tradicional "dancinha do Juli", mexendo uma mão de cada vez, como se estivesse batendo na teta de uma vaca, ou uma peteca. São coisas indescritíveis, quem viveu essas cenas se lembra muito bem.

Não tenho dúvidas que Matinhos e Caiobá estão de luto hoje. Uma morte inesperada assim de um sujeito tão bem-quisto por toda a comunidade acadêmica não é algo fácil de ser digerido e compreendido.

Eu ainda não digeri. Aquele primeiro pedaço de pão embebecido em café amargo não me desceu bem. Não é fácil aceitar que a vida passa e que a morte está aí ao nosso redor, até mesmo nas coisas inofensivas como cortar a grama. É angustiante saber que nossos amigos vão morrer, seja hoje ou amanhã.

O que fazer?

Apesar de nunca ter me falado de forma direta, Juli sabia o que fazer. Carpe Diem era seu lema velado. Mesmo sendo um brincalhão nato, ele levou a sério a proposta de aproveitar os dias ao máximo.

A pessoa se foi, mas não a lembrança gostosa de tantos risos e sorrisos.

Espero que nós - seus amigos - tenhamos aprendido algo que possamos carregar até nosso último dia. Basta pensar em Juliano Fumaneri (o "Juli") para lembrar que a vida é rara e que devemos aproveitá-la. Cada ser em si possui o dom de ser capaz de ser feliz.

7 comentários:

Gabriel Foroni disse...

Agente vem pra cá pra iluminar. Algumas luzes se afloram ao acordar, outras dormem, e só depois vão iluminar.
Quanto mais cedo uma pessoa se vai, menos ``contas´´ ele tem a pagar aqui nesse mundão.
É assim, mesmo sendo duro, somos fortes, capazes e alegres de saber que um dia, qualquer, estarão todos juntos num imensa mesa redondo, colocando o papo em dia.
Força Zanatta´s. Eu amo vocês!

prisci disse...

Uma notícia que não desce, não é?

Uma coisa tão boba... assim, sem aviso...

:(

Descanse em paz Juli... Vá alegrar os céus, que a sua memória fica aqui, alegrando a gente.

:~

Leli disse...

Notícia pesada né, Rafa?! O sentimento é exatamente esse, Carpe Diem, vamos aprender a aproveitar cada momento em sua profundidade. A vida é rara...e frágil. Não tenho outras palavras, não consigo nem pensar direito. Beijos!

Osmar Dalla Costa disse...

Olá Rafa! Como vai? Naturalmente triste com a morte do Juli. Soubemos pela Leli. Conheci ele bem menos do que vcs, mas deu para perceber que era um cara legal mesmo. Um grande perda! Abraços a vcs. Deixei uma mensagem de parabéns pro teu pai.

ricardo disse...

JULI.... DEUS MEU VELHO AMIGO

Rocha disse...

Cara!!! Que foda hein?!
O juliano era foda mesmo. Eu tive poucos encontros com ele mas todos sempre memoráveis.

O que foi aquela noite do balde e a foto dele com a cara dentro do prato fundo?! huhuahuahu

Realmente muito bad trip td isso daí..

Anônimo disse...

Mais valem os bons exemplos do que muitas palavras. Juli foi um exemplo de pessoa!
Carol

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