Lennon novamente: a working class hero is something to be

"Life is what happens to you while you're busy making other plans". John Lennon, Beautiful Boy

Preciso escrever um pouco mais sobre Lennon. O último texto, postado no dia em que lembramos seu "aniversário" de setenta anos, foi escrito e publicado às pressas, minutos antes de pegar o carro e ir para a beira do rio com a família de minha namorada. Mal tive tempo de lembrar algumas coisas importantes ou refletir calmamente sobre assuntos que John em mim desperta. O momento agora é propício. Lá fora chove e estou de folga (é meu aniversário, pelo menos me concedo o direito de fazer o que bem entender).

Precisamos de um trilha sonora. Vamos lá.



Working class hero is something to be. Esse refrão simples, com profunda mensagem, quase sempre tocava silenciosamente em minha mente quando passava diariamente pela Baker Street, sentado no segundo andar do vermelho ônibus 82 à caminho do trabalho. Neste local, havia uma placa com o nome de John Lennon. Através dessa música, Lennon me inspirava, ao mesmo tempo que me mostrava a farsa da (ainda atal) dinâmica social das classes baixas e médias.

De setenta para cá, o que mudou? Nós continuamos dopados com religião, sexo e televisão (ou internet). E ainda nos sentimos tão espertos, sem classe e livres. But you're still fucking peasants as far as I can see. Pesado, não? É difícil reconhecer que, em última instância, você é ainda um plebeu fodido.

É claro que o sistema educacional mudou muito e minha geração não é a mesma de John Lennon. Nós não recebemos palmadas, tapas e socos dos professores (tal como naquele simbólico videoclipe do Pink Floyd), nem fomos torturados e amedrontados na sala de aula por vinte anos. Mas o sistema é exatamente o mesmo e reproduz valores burgueses pré-fabricados que somente legitimam a dominação, a violência e a ausência de solidariedade. Tudo isto pra que? Para ter uma fonte de renda? Pra financiar uma casa com altos muros, alarmes e cercas elétricas? Pra comprar um carro com ar-condicionado, para que eu não tenha que ouvir e tampouco olhar na cara do pedinte na esquina da avenida Colombo?

Ainda sim somos amedrontados, mas de novas formas, para além da repressão física. Lennon experimentou um sistema educacional e religioso pautado na disciplina. Não vivenciou o regime disciplinar no seio familiar, pois não teve pai e sua mãe morreu jovem (e talvez essa tenha sido a salvação de John, por mais trágico e paradoxal que isso pareça), mas foi vítima daquilo que Foucault identificou como organização dos grandes meios de confinamento, ou sociedade disciplinar. Ou como ponderou Deleuze: o indivíduo não cessa de passar de um espaço fechado a outro, cada um com suas leis: primeiro a família, depois a escola ("você não está mais na sua família"), depois a caserna ("você não está mais na escola"), depois a fábrica, de vez em quando o hospital, eventualmente a prisão, que é o meio de confinamento por excelência.

Mas e eu e você, que somos jovens, que vivemos o agora?

Nós não somos mais confinados, mas endividados. Não existem Estados nacionais, mas empresas e bancos. Os regimes disciplinares agora transformaram-se em regimes de controle e tudo gira em torno do capital, do mercado e do consumo (ou seja, uma modernidade líquida - expressão de Zygmunt Bauman - que tende a eliminar os consumidores falhos, aqueles que não respondem aos estímulos do mercado e da via única que é o consumismo). A formação e a avaliação tendem a ser contínua, sem nunca ter fim. Terminamos o ensino médio, mas há o cursinho. Terminados a graduação, mas há a especialização. É preciso sempre um conhecimento técnico específico que nos impede de refletir e questionar os elementos basilares de nosso modus vivendi ou porque estamos fazendo tudo isso. Somos todos identificados com perfis em redes sociais e contas bancárias. Buscamos empregos não mais em fábricas, mas em empresas que possuem até mesmo alma! Lennon morreu há trinta anos e teve chance de observar melhor essa transição (da disciplina repressora para o controle contínuo), mas o francês Gilles Deleuze assim o fez em 1990, cinco anos antes de sua morte, e identifica justamente o que tenho notado com alguns colegas que, após formados, ingressam nesses programas trainees de grandes corporações, em busca de altos cargos e sucesso profissional. O que fazem estas empresas? O salário é modulado de acordo com a produtividade e os empregados são submetidos a diversos tipos de desafios e concursos internos. É assim se você trabalha na Renner e é assim se você trabalha na Ambev. Mas o que isso significa? É a construção do consenso ideológico que o sistema necessita para operar sem maiores resistências. A escola, a universidade e empresa introduzem o tempo todo uma "rivalidade inexpiável como sã emulação, excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um, dividindo-o em si mesmo", nos termos de Deleuze.

Quais são as nossas perspectivas? "Há lugar no sol", eles nos dizem, mas primeiro você tem que aprender a sorrir enquanto mata. Foram essas palavras que Lennon utilizou em seu último verso de Working Class Hero. E nós estamos aprendendo a sorrir enquanto matamos, mas de uma forma diferente: imperceptível, passiva, consensual. Nossa geração não se dá nem o trabalho de pensar numa outra alternativa. Pra que sonhar com algo tão complexo?

Nós temos medo, porque dependemos do sistema e não ousamos desafiá-lo. Os jovens são mais velhos do que nunca. Queremos estabilidade. Queremos bens materiais. Meus amigos e colegas, na maioria dos casos, buscam uma graduação em determinada área do conhecimento humano (seja Direito, Administração, Farmácia) não porque querem fazer parte daquela longa construção epistêmica ou porque crêem que é possível reunir teoria e prática numa atividade transformadora (práxis?). Querem o diploma pois é uma forma de acesso ao mercado de trabalho. Só assim se consegue realizar um concurso público, uma vaga num escritório ou o ingresso num programa de trainee. É uma forma de conseguir dinheiro.

Esse é nosso drama, meu e de qualquer pessoa com vinte e poucos anos. They've scared you for twenty odd years, then they expect you to pick a career, when you can't really function you're so full of fear, disse John.

O tempo andou mexendo com a gente. Nós temos medo, mas não gritamos. Eu também tenho medo, amigo. E um texto como esse justamente no dia do meu aniversário mostra meu grau de insatisfação com o mundo e comigo mesmo.

Que fazer? Talvez um herói da classe trabalhadora seja algo para ser.

Um comentário:

João disse...

As vendas que nos cegam são e serão as mesmas, poucos enxergarão o que está por trás dessas vendas, outros sabem que estão vendados e assim preferem ficar. Ótimo texto.

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