O Twitter e o conceito carnegiano imposto pelas listas de popularidade

"Princípio 1: Não critique, não condene, não se queixe. Se eu e você quisermos evitar amanhã um ressentimento que poderá prolongar-se por décadas e durar até a morte, sejamos indulgentes e não critiquemos, pois assunto nenhum justifica a crítica. Quando tratarmos com pessoas, lembremo-nos sempre de que não estamos tratando com criaturas de lógica. Estamos tratando com criaturas emotivas, criaturas suscetíveis às observações norteadas pelo orgulho e pela vaidade. A crítica mordaz fez com que o sensível Thomas Hardy, um dos mais finos romancistas que já apareceram na literatura inglesa, abandonasse para sempre os trabalhos de ficção. A crítica levou Thomas Chatterton, o poeta britânico, ao suicídio. Benjamin Franklin, um tanto descontrlado na sua juventude, tornou-se tão diplomata, tão hábil no lidar com as pessoas, que foi nomeado embaixador americano na França. O segredo do seu sucesso? 'Não falarei mal de nenhum homem', disse ele, '...e falarei tudo de bom que souber de cada pessoa'. Qualquer idiota pode criticar, condenar e queixar-se - e a maioria dos idiotas faz isso. Mas é preciso ter caráter e autocontrole para ser complacente e saber perdoar"
Dale Carnegie, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas (1937)

No best-seller "How to Win Friends and Influence People", Dale Carnegie - um dos criadores da auto-ajuda empresarial - conquistou milhões de norte-americanos desesperados com os efeitos da crise da década de trinta, publicando um manual pragmático sobre como persuadir pessoas sobre sua forma de pensar (os doze mandamentos são: Evite argumentos; Mostre respeito pelas opiniões da outra pessoa. Nunca diga a alguém que ele(a) está errado(a); Se estiver errado, admita de forma rápida e enfaticamente; Comece de uma maneira amigável; Comece com perguntas para as quais a outra pessoa vai responder sim; Deixe a outra pessoa fazer a falar; Deixe que a outra pessoa sinta que a idéia é dela; Procure honestamente ver as coisas do ponto de vista da outra pessoa; Simpatize com a outra pessoa; Apele a motivos nobres; Dramatize suas idéias; Lance um desafio, não fale negativamente quando uma pessoa está ausente e fale somente sobre o lado positivo).

Para embasar sua teoria motivacional sobre liderança, Carnegie justifica que o "desejo de ser importante" é inerente ao homem. Para o orador estadunidense, o desejo de ser grande (Freud) é uma espécie de fome humana insaciável e "os poucos indivíduos que satisfazem esta avidez tão enraizada no coração terão as pessoas na palma da sua mão".

Em razão de suas receitas prontas para o sucesso, Carnegie tornou-se referencia obrigatória nos cursos de formação de vendedores e representantes comerciais de grandes multinacionais. Lembro bem, ainda criança, de ver livros sobre o método Dale Carnegie na mesa de estudos de meu pai, que, na época, era representante da DuPont. Analisando sua teoria (?) agora, vejo que Carnegie sintetiza a imbecilidade do american way of life (ou melhor, business) que fomenta o individualismo predatório, tão necessário à dinâmica do capitalismo tardio. Para Francis Wheen (veja o livro Como a Picaretagem Conquistou o Mundo), Dale Carnegie é o grande responsável pela incrível onda de "disparates lucrativos" de como ser um líder ou alguém importante.

Mas afinal, porque escrevo sobre Carnegie justo hoje?

Resolvi escrever sobre as falácias carnegianas com relação à influência e poder após descobrir que meu nome estava listado numa relação dos Twitteiros Top 20 de Maringá, como o 13º usuário mais popular de Maringá.


De fato, eu havia pensado sobre a perspectiva de Carnegie sobre como influenciar pessoas após ler uma matéria, publicada dia 19/09 no O Diário, intitulada "As dez Twitteiras mais belas e influentes de Maringá". Após a leitura, pensei comigo: Qual o conceito de influência? O que é influenciar alguém? É possível influenciar pessoas pelo Twitter? Qual o propósito de uma reportagem como esta?

Semana passada refleti sobre o tema (a matéria me incomodou) e cheguei a rascunhar um texto. Mas não publiquei. Após uma conversa com a Luana Bernandes (que ficou em 4º lugar na lista feminina e também escreveu sobre o ocorrido), optei por não criticar, nem me manifestar sobre a reportagem. Afinal, o quão efetiva seria minha crítica? Eu seria capaz de magoar as mulheres ali listadas, ao invés de criticar o propósito e a ideologia subjacente à matéria, sendo que este era o objetivo. Mesmo sem querer, fui relativamente carnegiano.

Com a publicação de hoje, sinto-me numa posição legítima para fazer algumas reflexões críticas e reconstruir alguns conceitos. Por isso, acho que precisamos analisar bem o significado de uma lista como essa.

Primeiramente, qual a finalidade do Twitter e porque uma lista dos mais populares nesta ferramenta comunicacional?

Não tenho a ambição de chegar a uma resposta para a primeira pergunta, é claro. Após uma breve pesquisa, notei que estudiosos de diversas áreas também questionam as razões de o Twitter ter se tornado um fenômeno global nos últimos dois anos. Dimas Tadeu Filho, pesquisador da área de Comunicação e Semiótica da Universidade Federal de Juiz de Fora, aponta, em recente estudo, que "o Twitter se tornou um local de encontros, de aproximações. Em termos de presença online, nunca o artista, o acadêmico, o esportista estiveram tão próximos dos seus admiradores, e assim os seguidores se tornam, de certa forma, co-participes da vida de outrem, podendo dar opiniões, interagir com a experiência exposta pelo seguido". A partir da teoria da pansemiose universal de Peirce (1931) de que tudo é representação, ou mais precisamente, signos, Dimas sustenta que as relações comunicacionais do Twitter borram as fronteiras culturais entre o real e o virtual, em razão da secundidade (experiências anteriores conectadas à experiência do momento presente, gerando uma interpretação que relaciona signos) ocasionada pelo forte caráter de atualidade da comunicação.

Interessante, mas não nos auxilia em nada ao procurarmos respostas para a segunda questão. Afinal, o Twitter é uma vitrine social (uma nova modalidade de Orkut e Facebook) ou uma forma de reflexão direta, porém limitada em 140 caracteres?

Existem otimistas como Magaly Prado, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, que defendem o uso do Twitter como uma reinvenção do peripatetismo aristotélico. A pesquisadora entende que o ato de "tuítar" é uma versão pós-moderna do procedimento peripatético, qual seja, aquele utilizado por Aristóteles (384-322 a. C.) para pensar, refletir, filosofar e lecionar durante caminhadas na Grécia Antiga: "Da mesma maneira que no Twitter forma-se, no ciberespaço, um círculo de pessoas em torno de outras com afinidades ou por admiração, assim ocorria na escola peripatética da Grécia antiga. A diferença é que, enquanto no Twitter são vários os participantes – dos muito conhecidos até mesmo quem só é notado na rede – que conquistam seguidores, no Liceu era Aristóteles que atraía discípulos quando ensinava caminhando ao ar livre. Os fluxos de transmissão de ensinamento, outrora unidirecionais, passaram para bidirecionais (no telefone) e hoje são multidirecionais, ou seja, de muitos para muitos, com uma forte capacidade de articulação".

Neste viés, teríamos que reformular a lista do O Diário para "Os Dez Twitteiros Mais Filósofos de Maringá" (imagine a capa!). Poderia ser até uma boa ideia, mas quem iria comprar o jornal para ver quem anda pensando por aí? Pensar está em baixa. A moda é aparecer, como sempre foi.

Me parece que a única finalidade de uma lista como essa é reinventar a Coluna Social, numa versão mais moderna, tecnológica. O Twitter, de acordo com esta perspectiva, teria o escopo final de promover pessoas, tão somente. O importante é ser seguido (mas não seguir na mesma quantidade), ter o maior número de retuítes possível e dizer coisas cool.

Mas será que é para isso que o Twitter serve? Não estaríamos limitando (com qual objetivo?) uma poderosa ferramenta de comunicação em tempo real capaz de promover mudanças, tal como a revolta dos moçambicanos em Maputo, gerada através de mensagens via SMS?

Em outra análise (além desta nossa breve reflexão), limitar o uso do Twitter à ostentação individual não seria legitimar um sistema econômico-social que depende de tal perspectiva subjetiva (de que precisamos ser melhor que o outro, ser importante, ser o líder, ser o popular) para sua operacionalização e manutenção do status quo?

Pra mim, fica bem clara a tentativa de impor um conceito carnegiano (este de como fazer amigos e influenciar pessoas) ao Twitter através de listas de popularidade, que, aparentemente, objetivam apenas incitar o desejo coletivo de ser alguém importante (aliás, importante pra quem?).

Este é o perfil do maringaense.

Não questione, reproduza o padrão social vigente.

Em última análise, uma inocente e amistosa lista como essa (que deveria massagear meu ego ao invés de me deprimir) passa essa mensagem.

ps: Favor RT (estou sendo irônico).

9 comentários:

Rafael Zanatta disse...

Acho que textos deste porte (extensos, com referências e perguntas) inibem comentários.

Michel Gomes disse...

Na internet a galera gosta de textos rápidos. Acho, particularmente,muito ruim isso.

Agora quanto a análise, você fez um ótimo paralelo Zanatta. A questão de influência é relativa. Depende do meio em que você está inserido. Usar a internet como coluna social já virou moda, temos os Tmz's da vida. O Diário só "importou" a idéia.

Mas o twitter como ferramenta já provou sua eficácia e como tudo na internet (e na vida...) devemos saber aproveitar.

Mas enfim, parabéns pelo post, os argumentos são sólidos. Atacar simplesmente por atacar qualquer faz.

Abraços.

Raphael Pereira disse...

São matérias como essa, publicadas em jornais como esse, em cidades como essa, que me asseguram de que sempre tive razão sobre um importante aspecto da fauna local: imagem é tudo, principalmente pros boçais.
Sintetizar algo que preste em 140 caracteres deveria ser a culminação de uma vida de intensos estudos e contemplação do mundo. Neste bizarro mundo de obscurantismo e intolerância, o poder de síntese dos bobos, dos palermas, rudes, e inseguros, está se tornando a regra. A grosseria e vaidade de gente que não teria luz própria não fosse a (discutível) inclusão digital é o que passa por humor.
O Twitter, assim como o Orkut antes dele, deu voz a muito do pior que essa sociedade cria, do meramente medíocre ao supremo do preconceituoso e cruel, tudo de forma bem simples e concisa, descomplicado para a turba ignara, acéfala, os mortos-vivos que aprenderam a escrever na Internet.
Tenho a impressão de que boa parte dos listados devam ser exemplos que negam o que acabei de escrever, acredito que devam ser exceções no mar de estupidez, e minhas observações não se estendem a eles e elas. Ainda assim, me pergunto: por onde andava, ou digitava, gente supostamente tão interessante?

Thali disse...

Ótima analise, na verdade, tem muito do que já discuti com algumas pessoas que também viram essas matérias. Acho que o Twitter é uma ferramenta mal interpretada e mal utilizada pelas pessoas. É um canal de disseminação de idéias, informações e inutilidades (claro) não de geração de conteúdo. Repassar informação pronta, colar links é influenciar as pessoas? Não acredito nisso. E outra, até onde ser "relevante" na opinião do jornalista dessa matéria é ser relevante para os outros? Isso é tão relativo. Por isso digo que o Twitter é mal interpretado, as pessoas estão buscando relevância, importância e aprovação em uma ferramenta que não serve para isso. Querem fazer a revolução por Trending Topic, fazer name dropping com famosos, ganhar um saco de bala de canela via RT. Mas isso é só a opinião de alguém que só twitta bobagem e não leva a intenet (muito menos o twitter) a sério.

wwww disse...

muitas pessoas não conseguiriam fica a vontade para discorrer sobre algo em público. qual o problema com o twitter interrogação meus poucos seguidos e seguidores são adolescentes maringaenses que discorrem sobre suas espectativas e infortunios tavez não d~e realmente para prestar atenção a tudo que se diz e aos likes sigeridos e as coisas fiquem um pouco fragmentadas mas e daí a vida o munde já não o é

aguinaldocavalheiro disse...

muitas pessoas não conseguiriam fica a vontade para discorrer sobre algo em público. qual o problema com o twitter interrogação meus poucos seguidos e seguidores são adolescentes maringaenses que discorrem sobre suas espectativas e infortunios tavez não d~e realmente para prestar atenção a tudo que se diz e aos likes sigeridos e as coisas fiquem um pouco fragmentadas mas e daí a vida o munde já não o é

Anônimo disse...

é tudo puta e/ou viado

Nina disse...

Recebi seu texto pelo twitter(risos). Sem querer ser como Carnegie, eu gostei do que li.
Mas veja só, eu acho que o twitter sempre teve essa semente do mal intrínseca. Esta história de seguidores, e as listas, e recentemente até um medidor objetivo de influência da pessoa no twitter...tudo isso já virou a cabeça de muita gente que eu pensava que conhecia. Pessoas que eu achava que viviam em paz se mostram tão necessitadas de amor e de atenção que chega a ser perturbador.
Mas mesmo assim, não deixo de gostar dessa rede social. Exatamente pelo limite de 140 caracteres: se eu estivesse no twitter, não teria escrito tanto. Gosto também da velocidade das informações trocadas.
Quanto às listas, é só não ler, ou então, tolerá-las.

menino de rua disse...

O twitter sempre me intrigou nesse mesmo sentido que foi colocado em seu texto.

Já pensou no que diriam Benjamin e Marcuse sobre a "velocidade" e a "objetividade" da internet e especialmente dessa ferramenta? Esses caras já atentavam pra tudo isso há muito tempo -- 80 anos no caso de Benjamin e 40 no de Marcuse. Afinal, qual a "experiência" que se transmite em 140 caracteres? Até alguns animais articulam sons (e não linguagem) com menos breviedade que isso, cara.

Conforme esse jornal que circula em nossa província -- essa mídia individualizante e burguesa por excelência, diga-se de passagem -- os que mais abreviam o pensamento se tornam sinônimo de influência e competência. São modelos de mediocridade (quase uma animalidade) a serem seguidos -- e que fique claro que esse não é o seu caso.

Essa barbárie cognitiva é o nosso holocausto. Não seria o computador um campo de concentração do pensamento conceitual, no qual a reflexão é assassinada em série, como foram os judeus na época em que escreviam alguns desses autores? O princípio da animalidade é o mesmo em ambos os casos e em cada canto da nossa vida.

Cada dia mais eu vejo que, pelo menos como seres livres, já estamos todos mortos, cara. Só resta ganhar um pouco de dinheiro, nos adequar, ficarmos um pouco loucos nas horas livres e ver graça na miséria humana e nas bizarrices que a rede nos proporciona.

Pelo menos esses imbecis que não têm consciência de nada disso são um pouco mais felizes na maior parte do tempo.

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