O pernanbucano Marcelino Freire: a surpresa da noite

Ontem saímos de casa atrasados (umas 20h15) e fomos ao SESC-Maringá ver de perto o performático Fabrício Carpinejar (que estava com imensos óculos e a palavra INTER grafada nos poucos cabelos na parte de trás de sua cabeça), poeta gaúcho comentado no último post. O evento era gratuito e tinha como tema debater a prosa curta na era Twitter.

Chegamos lá no meio do debate. O salão do SESC comportava umas cinquenta pessoas, muitos deles amigos e conhecidos (seja da música, seja das letras), muito atentos ao debate entre Carpinejar e Marcelino Freire (até então um desconhecido por mim), mediado pelo Bulga.

O clima era intimista. Parecia uma dessas conversas de sala-de-estar regada à vinho (mas sem o vinho): os dois escritores sentados num puff, discutindo não só a nova literatura brasileira, mas temas inusitados como Big Brother (registre-se que Carpinejar disse que participaria e Marcelino Freire nunca), revistas pornográficas masculinas, geração internet, arte descartável, prêmio Jabuti e histórias de vida.

Aliás, muitos desses temas foram provocados pelas perguntas das pessoas ali presentes. Eu mesmo fiz uma pergunta sobre a busca pela identidade cultural paranaense e a necessidade dessa busca - perguntinha difícil (cretina?) que os dois não conseguiram responder. Não há uma identidade paranaense e as próprias cidades (Curitiba, Londrina e Maringá) não apresentam um estilo literário homogêneo (o que é bom, sob outro prisma).

Foi uma noite divertida. Os dois escritores arrancaram muitos risos da galera. Era comum Carpinejar implicar com a religiosidade de Marcelino - mantendo seu estilo provocador.

Mas o destaque, pra mim, foi Marcelino Freire. Pernanbucano do sertão, apresentou ideias coerentes e realmente deixou claro o que é ser um escritor brasileiro (um ser angustiado, que dedica-se à melhor prosa, às melhores palavras - de forma concisa -, nem sempre ganhando por isso, mas revelando os sabores da vida através das letras).

A leitura de "Caderno de Turismo" (da obra Contos Negreiros) foi um momento sublime da noite. De fato, é indescritível a leitura de Marcelino, empregando ritmo, rima e entonação de forma brilhante (somado ao delicioso sotaque pernambucano)- algo que só o criador poderia fazer.


"Zé, essa é boa.
O que danado a gente vai fazer em Lisboa? Bariloche e Shangri-lá? Traslados para lá. Para cá. Travessia de barco pelos Lagos Andinos. Nunca tinha ouvido falar em Viña Del Mar, Valparaíso. A gente não devia sair do lugar. 
Quem já viu se aventurar na Ilha do Cipó? Ilha do Marajó? Itacaré? Fugir de dentada de jacaré? O que você quer, homem? Sem dinheiro, chegar onde? Não tem sentido. Oklahoma, nos Estados Unidos. É delírio. Peregrinar até as múmias do Egito. 
Que história é essa de cruzeiro marítimo? Caribe, Terra dos Vikings, Mediterrâneo? Enfrentar o Oceano Atlântico? Canadá, Canaã? Deserto de Atacama? Que besteira! Ir para Bali, Beijing, Xian, Xangai, Hong Kong.
Zé, olhe bem defronte: que horizonte você vê, que horizonte? Pensa que é fácil colocar nossos pés em Orlando? Los Angeles? Valle Nevado? Que língua você vai falar no Cairo? Em Leningrado? Nem sei se existe mais Leningrado. 
Zé, esquece. 
Nada de Andaluzia. Tahiti. A gente fica é aqui. Que Sevilha? Roteiro Europa Maravilha. Safári na África pra quê? Passar mais fome? Leste Europeu, Escandinávia, PQP. 
Presta atenção: a gente nem conhece o Brasil direito. Bonito, Chapada Diamantina. Dos Veadeiros. A América Latina. Guiana e Guiana Francesa. Não existe beleza. Rota do Sol. Rota das Estrelas. Perca. Atrase a viagem, Zé. Não parta. 
Você não vai para a ilha de Malta, não vai. Eu não deixo. A vida da gente é aqui mesmo. Sempre foi aqui mesmo. Não nascemos no Berço da Civilização, Istambul e Capadócia. 
Zé, o que deu na tua cabeça? Ora, joça! Estamos Longe de Miami, homem. Acapulco e Suriname. Nosso destino é um só. A gente não tem dólar. A gente não tem cartão. Deixa de imaginação. Você não tem medo de avião? Tanta asa que cai pelo chão. Atentado, bomba em Bengasi, doença em Botsuana. 
Zé, estou sendo franca: olha bem pra nossa cara. 
Por que partir para Dinamarca? Caracas? Cancún, Congo? Cachorro a gente enterra em qualquer canto. Enterra aí no quintal, Zé. E pronto."

Te asseguro, isso sim é uma poesia de voz alta.

7 comentários:

Rannah disse...

lendo consigo ouvir a voz dele. incrível! e ele ainda foi pro sarau depois. uma figura!

Bruno Vicentini disse...

você não tem NOÇÃO do tamanho da surpresa! a Rannah me deu o livro de presente, puta que pariu, já tô quase terminando, não dá pra parar de ler. Marcelino foi ao sarau, conversou com todos durante muito tempo, sempre bem humorado, falando sobre literatura, música, a Flip, São Paulo, Chico Science. ele e o carpinejar ligaram pro Michel ontem! e mudaram o nome do livro de contos!

Inacreditável.

prisci disse...

hahahahaha (pergunta pro Bruno) é nada???

Rafael Zanatta disse...

Ligaram pro Michel ontem?
Que história é essa?

Cronicas de Gaia disse...

eu liguei pro Michel e falei que o Marcelino queria falar com ele...

Imagina a surpresa do Xexéla!!
ehehhe

Em tempo: Carpinejar e Marcelino votaram no nome: GaGá. Os Novos Contistas Maringaenses que já nascem velhos.
Ou coisa do tipo...

Rafael Zanatta disse...

É massa que GaGá lembra muito MarinGá.

Bruno Vicentini disse...

a origem do nome é essa mesmo.

a explicação talvez seja outra!

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