O pensamento freireano (e a necessidade de descobrirmos Paulo Freire)

Education as the Practice of Freedom, Cultural Action for Freedom e Pedagogy of the Opressed são algumas das obras mais lidas de Paulo Freire mundo afora, exportando o conceito de "conscientização" (em bom e claro português) aos maiores centros de estudos em filosofia crítica na educação. Não é atoa que Denis Goulet, um dos mais importantes humanistas da Economia e criador da teoria da ética do desenvolvimento (que influenciou o premiado pensador indiano Amartya Sen), escreveu antes de sua morte que: "no contemporary writer more persistently explores the many dimensions of critical consciousness than Paulo Freire, a multi-cultural educator with the whole world as his classroom notwithstanding the totally Brazilian flavor of his emotions, his language, and his universe of thought. Freire never tires of looking for new forms of critical consciousness and unearthing new links between oppression in a variety of settings and the liberating effects of 'conscientização'. The unifying thread in his work is critical consciousness as the motor of cultural emancipation".

Mas se Paulo Freire é cultuado na Europa e nos Estados Unidos (ao menos entre os pesquisadores adeptos da concepção da educação como conscientização, empoderamento e emancipação), porque o pensamento freireano (que é amplo e relaciona-se com a crítica de Michel Foucault à microsífica do poder no sistema educacional e o combate de Antonio Gramsci à "hegemonia" cultural obtida através do controle do sistema de educação pela classe dominante) não é discutido além das salas de aula dos cursos de Pedagogia no Brasil?


Me parece que ainda não reconhecemos, ao menos no Sul do país, o patrimônio cultural que é o educador e filósofo Paulo Freire. De fato, como bem apontou Paulo Ghiraldelli Jr., os conservadores da direita ainda não conseguiram visualizar a universalidade das idéias de Freire sem o teor marxista da educação como ato político. Ghiraldelli, aliás, mostra como a Revista Veja é responsável por erros crassos sobre a teoria de Freire (chegando ao cúmulo de inverter premissas básicas de seu pensamento através de artigos que são verdadeiras falácias). Veja só:



Mas o que está em questão aqui não é a crítica fajuta à Paulo Freire - o que não deixa de ser um grande problema, pois a classe média ignorante tende a tomar o que está escrito na Veja como verdade absoluta, sem exercer qualquer reflexão crítica a respeito do que está escrito ali e a ideologia obscura em cada texto e matéria. O que me causa espanto é a falta de debate sobre o trabalho incrível de Freire no nordeste e ao redor do mundo! Não se fala em Paulo Freire na maioria dos cursos de graduação, sendo que sua teoria é aplicável à qualquer área do conhecimento humano, pois a educação está na base de qualquer conhecimento que se diga científico.

Qualquer pessoa com um pingo de humanismo irá se identificar com o pensamento freireano, pois a leitura da obra de Freire é um divisor de águas. Sei que é assim, pois foi o que ocorreu com minha mãe, comigo e com meu amigo de infância Heitor Pagliaro, agora bacharel em Direito pela Universidade Federal de Goiás. No caso do Heitor, o impacto de Freire foi tamanho que a dedicatória do trabalho de conclusão de curso diz: "ao educador Paulo Freire, que, através de seus livros, inspirou-me uma nova postura perante o mundo". Nesse trabalho, há uma excelente passagem que sintetiza a humildade e a dialeticidade do conhecimento científico, o que pode ser aplicado à qualquer área da academia: "É importante reconhecer a dialeticidade do conhecimento científico, no sentido de que ele nunca se apossa da verdade, mas, simplesmente, se direciona para ela. A refutabilidade é uma possibilidade constante no desenvolvimento científico. Nesse sentido, Paulo Freire assevera que o erro não está em defender um ponto de vista, mas em absolutizá-lo".

Esse é um dos traços marcantes do pensamento freireano, mas não o mais importante. Na opinião, não só minha, mas de todos os que conhecem o trabalho de Paulo Freire, a grande herança deixada para toda humanidade é o trabalho de uma vida, que envolveu teoria e práxis, sobre os saberes necessários para a prática educativa transformadora - algo que precisa ser implementado com urgência se desejamos mesmo alguma mudança significativa neste mundo.

Não há motivos para desconhecer o pensamento freireano. Grande parte de sua obra (como, por exemplo, os excelentes livros Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia, Pedagogia da Indignação) está disponível gratuitamente na internet através da Biblioteca Digital Paulo Freire.

Dê um pulo lá, baixe uma obra qualquer e veja uma outra proposta de mundo (que não é tão nova, pois Freire defendia tais idéias desde a década de sessenta até sua morte em 1997, mas é atemporal), de superação entre opressor e oprimido e fomento à capacidade empática do homem através do amor. Uma idéia que pode parecer ser piegas, mas que talvez seja o novo iluminismo do Século XXI (tal como defendido pelo inglês Matthew Taylor).

Um comentário:

Marcia disse...

Pô Rafa,

Vc é meu filho, mas sempre está surpreendendo-me. De fato, sempre soube de sua verdadeira paixão por Paulo Freire e ao mesmo tempo, a sua decepção pelo fato da academia brasileira não reconhecer sua importância enquanto todo o mundo a manifesta. Pórém, sua ação de expor seu posicionamento de forma refletida foi maravilhosa e digna de um humanista intusiasta. Te amo e vamos em frente porque sabemos o quanto a academia teme o estudo da realidade com a intenção de modifica-la.

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