Carpinejar

"Pensava que escrevia por timidez, por não saber falar, pelas dificuldades de encarar a verdade enquanto ardia, arvorava, arfava. Há muitos que ainda acreditam que começaram a escrever pela covardia de abrir a boca. Nas cartas de amor, por exemplo, eu me declarava para quem gostava pelo papel, e não pela pele, ainda que o caderno seja pele de um figo. O figo, assim como a literatura, é descascado com as unhas, dispensando facas e canivetes. Não sei descascar laranjas e olhos com as unhas, e sim com os dentes. Com as mãos, sei descascar a boca do figo e o figo da boca, mais nada. Acreditei mesmo que escrever era uma fuga, pedra ignorada, silêncio espalhado, um subterfúgio, que não estava assumindo uma atitude e buscava me esconder, me retrair, me diminuir. Mas não. Escrever é queimar o papel de qualquer forma. Desde o princípio, foi a maior coragem, nunca uma desistência, nunca um recuo, e sim avanço e aceitação. Deixar de falar de si para falar como se fosse o outro. Deixar a solidão da voz para fazer letra acompanhada, emendada, uma dependendo da próxima garfada para alongar a respiração. Baixa-se o rosto para levantar o verbo. É necessário mais coragem para escrever do que falar, porque a escrita não depende só de ti. Nasce no momento em que será lida."


Gaúcho, poeta, jornalista, mestre em Literatura e professor universitário, careca, doidão, de aparência agressiva e suavidade emocional. Esse é Fabrício Carpinejar, artista que escreve com o coração e diz que a poesia é, e sempre será, um lugar de pensar a vida.

Autor de diversos livros, Carpinejar tem influenciado a nova geração de escritores brasileiros, e quem sabe até os maringaenses, como Alexandre Gaioto, entre outros.

Graças ao SESC Paraná, Carpinejar estará em Maringá hoje (20h) participando do projeto Autores & Ideias junto com Marcellino Freire. O tema da conversa é "A narrativa breve na era do Twitter". Segundo a proposta do SESC, os dois autores discutem "as particularidades do texto literário curto, em voga desde o século 19 e hoje novamente em evidência graças à popularidade do fenômeno Twitter".

Carpinejar tem propriedade para falar do assunto. Seu twitter tem quase 50.000 seguidores e suas frases são retuitadas por centenas de pessoas. É um cara conhecido, apesar de afirmar que "depois que publiquei meu primeiro livro, fiquei extremamente desconhecido".

Enfim. É a chance de ver o exótico escritor pessoalmente e acompanhar sua visão de mundo, que é, de fato, muito humana e atual.

Interessados devem mandar e-mail para laidesousa@sescpr.com.br confirmando a presença.

Nos vemos lá.

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