O último desafio de Dona Márcia: a defesa da tese

"Sendo o extrativismo uma atividade humana, ele é uma construção social que, além de ser ambientalmente determinado, está subordinado a determinados condicionantes socioculturais.
A estrutura encontrada hoje nas comunidades rurais de Guaratuba-PR não determinam totalmente a ação humana, mas as condicionam.
A ação extrativista precisa ser uma opção para as comunidades que vivem na floresta.
Comunidades rurais que encontram-se oprimidas, sofrendo conflito agrário e pressão ambiental, não têm opção e restringem-se ao extrativismo como única alternativa possível para sua sobrevivência. Dessa forma, a possibilidade de outras opções é uma prerrogativa para a ação extrativista sustentável.
Esta prerrogativa impõe um envolvimento mais amplo das comunidades caiçaras rurais, que precisam desenvolver diálogos e ações dentro de uma dinâmica interna (entre as famílias) e externa, reivindicando e acessando os serviços públicos.
Isso envolve um investimento a longo prazo em educação, saúde e participação política."

Foi mais ou menos assim que terminou a defesa de uma hora (extrapolando em vinte minutos o tempo normal) da Doutoranda Márcia Regina Ferreira (minha mãe) no anfiteatro do Campus de Agrária da Universidade Federal do Paraná na última quinta-feira, dia 08 de Julho de 2010.

Imagine a tensão: quatro anos de disciplinas estudadas e pesquisas de campo para serem sintetizadas menos de uma hora de apresentação para uma banca de cinco doutores.

"Acadêmicos, Mestrandos, amigos e familiares acompanharam a defesa"

A exposição de uma tese é algo tenso, mas não tão tenso quanto a argüição feita pela banca logo em seguida. Aí sim o clima fica pesado. É hora de sentar, esperar a banca ser composta e aguentar a sabatina dos membros ali presentes.

A banca era formada pelo Professor convidado Dr. Osvaldo Hidalgo da Silva (UEM), Dr. Valter Schaffrath (IFPR), Dra. Raquel Negrelli (UFPR), Dra. Dione Lorena Tinti (UFPR-Litoral) e Dr. Rodrigo Rossi Horochovski (UFPR-Litoral).

"Os doutores Hidalgo Silva, Schaffrath, Horochosvki, Ferreira, Negrelli e Tinti"

A argüição durou cerca de três horas, com uma pausa estratégica para um coffee break, previamente organizado pela Doutorando (ganhar a banca pelo estômago é uma boa!).

Ao contrário de muitas defesas, a banca não tentou destruir a tese de Márcia, mas fez comentários e sugestões muito construtivas para o melhor desenvolvimento do trabalho científico. As idéias de Osvaldo Hidalgo e Valter Schaffrath foram em diversos sentidos, desde a estruturação formal do trabalho (redação da Introdução, separação entre Resultados e Discussão) até novas propostas como a sugestão de uma Bolsa Floresta, com utilização do ICMS Ecológico como medida paliativa para a questão problemática (e precária) das famílias em nível de miséria nas comunidades tradicionais ("caiçaras") que vivem à margem das políticas públicas no Brasil.

Outro fato muito curioso na defesa foi a presença de dois membros da comunidade de São Joaozinho - que foi objeto de estudo (sobre os limites e possibilidades do extrativismo na região de Guaratuba-PR) da tese. Estavam lá o Seu Sebastião e o Seu Haroldo, que viveram a vida inteira na região de São Joaozinho e vivenciaram todo o processo de demarcação das áreas de preservação ambiental e do surgimento do industrianato como única opção de vida, através do cipó.

O Seu Sebastião, que foi homenageado na dedicatória da tese, não só estava presente como também interrompeu a argüição de Dione Tinti e pediu a palavra para confirmar sobre as condições sócio-políticas que vivem na região. Foi algo inesperado e deu mais legitimidade à tese, pois proporcionou o próprio diálogo entre os cientistas e o objeto (que são sujeitos) de estudo social, que é a comunidade analisada na tese (Habermas, que propôs a teoria da razão comunicativa, ficaria orgulhoso!).

Talvez algo inédito numa tese e que foge a toda e qualquer formalidade imposta pela academia.

No final, a banca elogiou muito o trabalho e reconheceu o esforço da Doutoranda na empreitada acadêmica, ressaltando que a tese traz muito retorno à sociedade paranaense e aos políticos, que podem se utilizar do trabalho para novas políticas públicas em prol da comunidade tradicional de Guaratuba. O modelo de propostas da tese, inclusive, pode ser adaptado para outras comunidades Brasil afora, reconhecendo as condições diversas de cada região.

Na hora de agradecer, Marcia Regina não se conteve e foi as lágrimas. Muitas lágrimas. Se emocionou, chorou e agradeceu a todos os que conviveram com ela nos últimos anos, principalmente amigos e filhos (sim, eu e o Renan!).

O discurso foi bem emocionante e confesso que quase fui as lágrimas também. Foi por pouco.

Depois a banca pediu que todos se retirassem e se reuniram em cúpula. Depois de vinte minutos todos voltaram à sala e ouviram a grande notícia:

"Marcia Regina Ferreira, sua tese de Doutorado está aprovada!"

Só alegria!

Chegava ao fim uma jornada que rendeu muito stress, gastrite, cabelos brancos, quilos a mais, quilos a menos, inúmeras viagens, centenas de livros devorados, inúmeras teses e teorias confrontadas, gráficos esboçados, redações escritas, sentenças apagadas, centenas de impressões, leituras até altas da madrugada, dias inteiros no computador, dores nas costas, dor nas juntas, dor de cabeça, empolgação, crise, falta de ânimo de ler e escrever, falta de vontade de viver, alegria ao conhecer os caiçaras, felicidade ao escrever algo inédito, raiva ao ter que retirar mais de cem páginas da tese, alegria ao concluir com o ponto final na última página.

Enfim.

Com esse processo todo (observação dos últimos anos tanto da tese do meu pai - Odacir Antonio Zanatta - quanto da minha mãe) deu pra ter uma noção que Doutorado é pra quem tem estômago. Mas vale a pena!

Foi o que falei desde o começo das crises de desespero: "Ninguém disse que seria fácil, mãe".

E não foi. Mas deu certo!

E nós celebramos!

Almoçamos todos juntos (a nova Doutora, a orientadora, os membros da banca, o Seu Sebastião, eu, Renan, Priscila, Leli, Evandro, e outros amigos) no restaurante O Fornão.

Parecia mentira, mas a penosa jornada tinha chegado ao fim: Dona Márcia agora é Doutora Márcia Regina Ferreira.

2 comentários:

Anônimo disse...

Rafael, meu filho amado...
Fiquei muito orgulhosos pelo que você escreveu sobre a defesa da sua mãe.
O Cesão (seu sogro) sempre comentou que a Márcia é uma professora com 350 referências bibliográficas na cabeça.
Exageros à parte, mas realmente a Márcia tem essa capacidade, e por ser muito ética nunca conseguiu falar nada que não referenciasse a fonte. Não que ela não tenha ideias próprias, muito pelo contrário. É que ela sempre fez questão de dizer que somos o somatório de várias pessoas que passaram por nós. Isso incomoda um pouco as pessoas, pois o que mais encontramos por aí é gente se apropriando de ideias e pouco se importando em mencionar a fonte. E parece que isso dá até processo, não é?
Parabéns a ela, e fico muito feliz do orgulho que você e o Renan têm dos pais.
Um abraço caloroso do seu paizão.

Anônimo disse...

é cara.. gostei muito de ti lá vivenciando um pouquinho do que discutiamos diariamente lá no litoral! hehe
agora só curtir papai e mamãe doutores.. responsa! exemplo!
abraço do nanan

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