Blonde on Blonde, Bob Dylan

O primeiro álbum duplo da história do rock. Um disco cinco estrelas, em todas as listas e revistas especializadas. Um clássico absoluto do nome de uma geração. Blonde on Blonde foi, e ainda é, um dos discos mais importantes da música norte-americana e, quem sabe, da própria história da música pop.


Gravado e lançado em 1966, um ano após ter chocado seus fãs com a adoção de uma vertente calcada no blues e no rock nos discos Bringing it all Back Home e Highway 61, abandonando o tradicional folk que o fez estrela com o sucesso Blowin' in the Wind, Blonde on Blonde é Dylan na sua melhor forma.

É um dos meus discos favoritos de Dylan. É claro que The Freewheelin' Bob Dylan é uma obra prima do folk, com canções sutis (Girl from the North Country), poéticas (A Hard Rain is a-Gonna Fall) e até políticas (Masters of Wars, Oxford Town) de um artista jovem e ambicioso. Mas Blonde on Blonde supera esse lado folk da primeira fase da carreira de Dylan e também supera a audácia dos dois discos "rock" de 1965. Não tenho dúvidas que Subterranean Homesick Blues e Like a Rolling Stone são clássicos absolutos do rock (e talvez, as melhores canções de Bob Dylan), mas nenhum desses discos é tão coeso e honesto quanto Blonde on Blonde.

Faixa-a-faixa
O disco abre com a fantástica Rainy Day Women #12 & 35. É possível ouvir gritos, metais, uma marcha constante, enquanto Dylan ri e canta o tempo todo que "eles vão te chapar" em todas as ocasiões (Well, they’ll stone ya when you’re trying to be so good / They’ll stone ya just a-like they said they would / They’ll stone ya when you’re tryin’ to go home / Then they’ll stone ya when you’re there all alone / But I would not feel so all alone / Everybody must get stoned). Não é por acaso que a música foi banida em diversas rádios por fazer apologia às drogas, fato que Dylan nega em entrevistas.

Na sequência, o disco ganha novo fôlego com o puta blues a la Muddy Waters Pledging My Time, com um belíssimo solo de gaita de uma nota só por vários segundos! Bem Bob Dylan. Na letra, Dylan constrói o cenário de forma ideal através de palavras escolhidas da forma certa pra cada verso e o sentido que Bob quer dar.

A terceira faixa, Visions of Johanna, é uma das minhas favoritas. Adoro a variação no vocal de Dylan logo no primeiro verso (Ain't it just like the night to play tricks when you're tryin' to be so quiet?). Parece desafinado, não sei. Mas é tão honesto, tão poético. Dylan é impecável na rima, na construção dos versos que não se repetem e na melodia de sua voz, violão e gaita. A banda acompanha ao fundo, com um simples teclado, bateria, baixo e linhas blues de guitarra.

Visions é considerada por muitos a obra prima lírica de Dylan. A letra, de fato, é imensa, cheia de linguagem poética, analogias, projeções de imagens e sentimentos através de palavras. Muitos dizem que não é uma música, mas uma pintura.

A quarta música consegue ser, talvez, tão boa quanto a anterior. One of Us Must Know (Sooner or Later) é uma declaração aberta à uma mulher sobre a necessidade de se conformar com o fim de uma relação. A composição é muito boa mesmo. Eu acho incrível como Dylan consegue colocar de formas direta as frases em suas letras, sem ficar sobrecarregado: When I saw you say goodbye to your friends and smile / I thought that it was well understood / That you'd be comin' back in a little while / I didn't know that you were sayin' goodbye for good. Acho essa letra incrível. O piano e o teclado que acompanham Dylan também são excelentes, formam uma melodia sutil que privilegia a mensagem que o cantor quer passar.

O ápice do disco é aqui, depois das duas músicas mais fortes do disco.

Depois vem a doce I Want You, que o Skank (do boa praça Samuel Rosa) regravou como a versão brasileira Tanto. Mesmo com a voz nasal e o refrão repetitivo de um Bob cheio de tesão (I want you so bad), Dylan não deixa de manter o velho estilo contador de prosa (Now your dancing child with his Chinese suit / He spoke to me, I took his flute / No, I wasn’t very cute to him, was I?).

Em Stuck Inside a Mobile with the Memphis Blues Again a banda ganha mais detaque. O órgão mantém uma melodia de fundo muito bacana, enquanto Dylan conta anedotas nos versos, construindo imagens novamente, retornando daí ao mesmo refrão diversas vezes.

Leonard-Skin Pill-Box Hat é blues, puro blues. Uma música divertida, cheia de pegada. Um dos pontos altos do disco para quem valoriza mais a sonoridade da banda e do cantor ao invés da linguagem poética de Dylan.

Daí vem a oitava música, uma das mais sensíveis do disco, Just Like a Woman. Ao mesmo tempo, mostra um Bob Dylan muito mais maduro, experiente em relações sexuais, em inúmeros casos amorosos. Aqui ele está mais pra Chico Buarque, aquele que entende as mulheres. Acho o refrão fantástico (She takes just like a woman, yes she does / She makes love just like a woman, yes she does / And she aches just like a woman / But she breaks just like a little girl). Depois Dylan é mais direto: Ah, you fake just like a woman, yes you do. E daí vem aquela gaita maravilhosa.

Depois acho que o disco cai um pouco de nível, apesar de se manter bacana. Most Likely You Go Your Way, Temporary Like Achilles, Absolutely Sweet Marie são faixas sem muita expressão, repetindo velhas fórmulas do mestre do folk-rock.

Surge então a meiga 4th Time Around, com um dos arranjos mais lindos do disco. Banjo, violão, gaita: tudo é bucólico. E, para mim, é uma homenagem de Dylan aos Beatles, com a música Norweggian Wood. Só que a letra de Dylan é muito melhor escrita e conta a história de um complexo casal que discute, briga, se desentendem e se amam.

Obviously 5 Believers, décima terceira música, volta com toda a pegada da música negra americana. Guitarras, gaita, bateria e percussão. Uma baita música.

Sad Eyed Lady of the Lowlands fecha o disco com seus tristes onze minutos, numa balada que privilegia o vocal nasal de Dylan.

Dylan, o mito
Esse disco consagrou Dylan como o grande compositor do século XX. E mais: o artista completo: o homem que se faz sozinho, o lobo solitário.

Com um álbum carregado de emoção, poesia e bons arranjos, Bob Dylan entrou para a história e influenciou inúmeros compositores.

E uma coisa é certa. Ainda é cedo para mensurar a importância de um artista deste nível para a música e para o rock.

O que nos resta é apreciar esse excelente disco.

2 comentários:

jovem disse...

Já viu isso? http://www.youtube.com/watch?v=uEv5cGNbi_4
o Jöleno esmirilhou o Bob Dylema.
hehaeheh

ah,
e o blog 'novo' ficou belíssimo!

Rafael Zanatta disse...

Nossa, velho, o Bob tá muito stoned!

Saca essa historinha (Bob meet The Beatles), que hilária:
http://www.youtube.com/watch?v=ybI34Z_ZHbo&feature=fvw

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