MIA e o incômodo do pop

Sinceramente, acho que nunca tinha visto um videoclipe tão impactante como o de Born Free da cantora londrina MIA.

Entretanto, antes de assistir ao clipe, é bom você ter uma boa noção da veia artístico-política e da história de MIA para poder entendê-lo plenamente.

Talvez você se lembre, mas MIA se apresentou no Brasil em 2005 no Tim Festival daquele ano. Ela também foi bem comentada aqui por misturar elementos da música carioca, como o funk, em músicas como Bucky Done Gun. Seu primeiro disco (Arula, 2005), aliás, foi muito bem recebido pelo mundo todo por misturar elementos da world music num som moderno, de vanguarda, que misturava ainda Dub, Reagge e Hip Hop.

O que pouca gente sabe é do ativismo político de MIA. Após ter nascido em Londres, ela regressou ao país de sua família, Sri Lanka. Ainda criança, viu seu pai fundar a Organização Estudantil Revolucionária de Eelam, grupo político-revolucionário com membros na Sri Lanka, Manchester e Londres. O grupo objetivava a criação do Estado independente de Tamil Eelam, em razão de diferenças étnicas, sociais, culturais e objetivos econômicos dos habitantes do norte e do sul do Sri Lanka, os quais foram forçadamente unificados pelo Império Britânico em 1815.

Em 1986, três anos após o início da Guerra Civil do Sri Lanka, MIA se mudou com a irmã mais velha para Londres na condição de refugiada, deixando sua família para trás, principalmente seu pai, que passou a militar pelo Liberation Tigers of Tamil Eelam, principal grupo separatista do norte do país.

Em Londres, MIA estudou artes e passou a compor, mesclando música e política através de suas letras com ritmos dançantes. Ela mesmo explica sua tentativa: Nobody wants to be dancing to political songs. Every bit of music out there that’s making it into the mainstream is really about nothing. I wanted to see if I could write songs about something important and make it sound like nothing. And it kind of worked.

Em 2009, MIA utilizou o Twitter para expor a crueldade da Guerra Civil no Sri Lanka e o extermínio do grupo separatista conhecido como Tigers. Algumas fontes apontam que mais de 80.000 foram mortas nos confrontos civis, provocando uma verdadeira limpeza étnica em seu país, considerando que o povo Tamil é diferente daquele que governa o país, basicamente de origem indiana, com apoio financeiro do exército britânico e americano.

Talvez MIA não tenha conseguido transmitir sua mensagem através de suas letras, de seus tweets e de seu ativismo político no Sri Lanka e em Londres.

Mas semana passada, ela foi além.

Com a música "Born Free", MIA convocou o diretor Romain Gavras e produziu um dos mais brilhantes videoclipes dos últimos anos, através de cenas de fortíssimo teor de violência e barbárie. A violência, aliás, é um instrumento para nos forçar a refletir sobre a limpeza étnica legitimada por alguns estados, tão comum na história moderna e contemporânea.

Assista e sinta o aperto no peito.


Esse é o nosso mundo, sem ilusões.

Um tapa na cara de Lady Gaga.

Um balde de água fria na humanidade.

Um comentário:

prisci disse...

Andei vendo os clips mais antigos da mia.

Inegável a imitação por parte de Gaga.

Óculos, dança, parte do vestuário. Tudo sugado.

É chato o fato de as pessoas prestarem atenção nas coisas ruins.

:P

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