Dylan Thomas

Hoje pela manhã li uma notícia via twitter (@mondobacana) que me chamou a atenção. Na verdade, não se trata de uma notícia, mas de um review do filme "The Edge of Love" (2008) que somente agora chega às telas paulistanas.

"Extremamente hábil e sensível com as palavras, o jovem Dylan Thomas deixou os campos tranqüilos do País de Gales, onde nascera e crescera, para se aventurar em uma Londres apavorada pelos bombardeios da Segunda Guerra. Trabalhava profissionalmente para a BBC, escrevendo textos editoriais para confortar a população durante os dias de perigo, horror e destruição. Contudo, o que falava sempre alto era a sua paixão pela poesia e foi exatamente por ela que inscreveu seu nome como um dos maiores poetas britânicos do Século 20. Como todo poeta maldito, Thomas fazia questão de manter sua vida desregrada e cheia de excessos. A visceralidade de seus versos transferiu-se tanto para sua vida que morreu antes de completar 40 anos."

Não quero comentar sobre o filme, nem sobre a resenha do Mondo Bacana. O que me motivou escrever é simplesmente compartilhar algo sobre Dylan Thomas. Quem foi esse galês? Você já ouviu falar desse sujeito?

Obviamente, para quem aprecia a boa música, a primeira remissão mental que ocorre é pensar em Bob Dylan. Ou melhor, em Robert Zimmerman - seu verdadeiro nome. Robert, ainda muito jovem, escolheu o nome artístico de Bob Dylan, adaptando o primeiro nome de Dylan Thomas, poeta a quem tinha muita admiração.

"Residência de Dylan Thomas em Camden-Londres - meu primeiro contato com Thomas, em 2008"

E é perfeitamente compreensível porque o jovem músico escolheu tal nome. Dylan Thomas, mesmo sendo britânico, virou uma lenda nos Estados Unidos ao se mudar para lá no final dos anos quarenta. O alcoolismo, o forte sotaque galês e a notável sonoridade de suas leituras em conferências literárias e cafés ajudaram a fomentar sua imagem de poeta cult.

"The publication of 'Deaths and Entrances' in 1946 was a major turning point in his career. Thomas was well known for being a versatile and dynamic speaker, best known for his poetry readings. His powerful voice would captivate American audiences during his speaking tours of the early 1950s."

Sua morte em 1953 foi cercada de dúvidas e histórias mal contadas. Alguns diziam ser afogamento por coma alcoólico. Outros diziam que os problemas de asma, bronquite e pneumonia o levaram à morte. A confusão deu até origem a um livro: Who Killed Dylan Thomas? - por David Thomas.

"An alcoholic is someone you don't like, who drinks as much as you do" - Dylan Thomas

O que realmente importa é que Dylan Thomas era um mestre em ordenar as palavras certas, com um estilo verbal único - que influenciou não só Bob Dylan, mas grande parte da Geração Beat - tratando de temas fortes como a unidade da vida e a morte.

Para Thomas, a poesia era a sublimação cultural humana. Nas suas próprias palavras: "A poem is like a city: it has many entrances. Poetry is the apex of culture, the spire of civilisations. It is the scalpel of emotion and the anvil of thought. It whispers and it bellows the unsayable with mere words."

A poesia mais famosa de Dylan Thomas é a villanelle Do Not Go Gentle into that Good Night, escrita em 1951 em memória do falecido pai do poeta. O poema é, até hoje, um dos mais lidos em velórios britânicos, devido a sua beleza e forte conteúdo emocional - muito bem expressado nas leituras de Dylan.


A tradução, de Ivan Justen Santana, se dá em língua portuguesa assim:

"Não entre nesta boa noite com brandura,
A idade deve arder e curtir muito ao fim do dia;
Ruja, ruja contra a luz que morre e não fulgura.

Os sábios, que ao fim sabem como a noite é escura,
Porque a rede das suas palavras acabou vazia,
Não entram nesta boa noite com brandura.

Os homens bons, ao dar adeus, gritando quão pura-
Mente seus feitos frágeis bailariam numa verde baía,
Rugem, rugem contra a luz que morre e não fulgura.

Os homens loucos, que cantaram o sol na captura,
E aprendem, tarde, que só o lamentavam em sua via,
Não entram nesta boa noite com brandura.

Os homens graves, à morte, vendo com cega finura
Que feito um meteoro gaio o olho cego brilharia,
Rugem, rugem contra a luz que morre e não fulgura.

E você, meu pai, aí da sua triste altura,
Clame, abençoe feroz em lágrimas minha prece arredia.
Não entre nesta boa noite com brandura.
Ruja, ruja contra a luz que morre e não fulgura"

Belo, não?

Um comentário:

Aguinaldo Cavalheiro disse...

só conhecia um poema dele que saiu uma vez no MAIS da Folha lembro que falava da ausência da mulher que ele amava, fiquei tocado.

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