A proximidade do fim

Meu deus, que loucura. As festividades natalinas estão a todo vapor. Luzes amarelas, comércio até tarde, espírito consumista e tantos outros sentimentos que afloram no senso comum de todo o globo. E isso só me faz lembrar que o fim do ano está aí, forçando um sentimento de dever cumprido e renovação de votos em toda a população (se bem que eu não estou, nem um pouco, com essas sensações).

Mal consigo acreditar que estamos chegando na semana do natal.

2009 foi voraz. Foram tantas novidades, preocupações e desafios nesse ano de retorno à Maringá, que os dias foram se atropelando, consumindo minhas energias e acelerando minha noção de tempo.

Parece que foi ontem que vivenciei o espírito natalino europeu. Mas não foi. Já faz um ano. Já faz doze meses que passei a semana de natal na encantadora e contrastante cidade de Goethe, Habermas, Adorno e outras tantas figuras célebres de Frankfurt, seja da chamada Escola de Frankfurt, ou não.

Realmente, o natal no hemisfério norte tem um significado muito forte. Acho banal nossa importação de costumes e tenho dito que seria muito mais viável uma festa nestes moldes nos meses de Junho ou Julho - assim como foram adequados os Winter Fests para as festas juninas, através dos imigrantes europeus no Brasil, viabilizando as tradições de inverno com a inversão climática dos hemisférios.

Mas não é pra criticar o natal brasileiro (e de outras ex-colônias) que comecei a escrever esse texto.


"Romemberg, Frankfurt"

A intenção é refletir sobre como as coisas passam. E rápido.

Sei lá. De repente você está num lugar estranho e depois está em outro, e depois está em casa. É tudo efêmero.

Comecei esse ano em Budapeste. O primeiro dia do primeiro mês deste ano foi com neve. Dia cinza e fechado na capital húngara. E Chico Buarque estava certo. Também pensava eu que Budapeste fosse cinza, mas ela é amarela.

O primeiro dia do ano simbolizava o fim de uma jornada. Era a cidade limite à Leste no meu mochilão - voltaria depois para Salzburg, Genebra, Monptpellier, Barcelona e Londres. O que simbolizaria o fim de minha estada na Europa, pois chegando novamente na Inglaterra, dois dias depois, voltaria ao Brasil.

Portanto, nesses primeiros dias, perambulando entre Buda e Peste, eu tive muito o que pensar. "Puta merda, o que vai ser agora? De volto pro curso, de volta pra Maringá?". E digo que não sofri os impactos psicológicos do retorno de imediato. Foi bem gradual. De fato, tem crescido até hoje o desejo de voltar, mas sei que não há possibilidade.

"Mit keresek én itt?"

Mesmo assim, o retorno foi interessante. Arrumei um emprego como professor de inglês, voltei pro curso, comecei a pagar um carro, mudei pra casa da Pri, comecei as gravações com a banda, montei um grupo de literatura, entrei num estágio em Direito, festei, reencontrei amigos, me envolvi novamente com o rock maringaense, etc e tal.

Mas sei lá. Tudo ainda é surreal. É real, eu sei. Mas no fundo tem uma sensação estranha. Uma náusea sartriana quase constante. As vezes eu simplesmente paro e fico olhando pra minha mão, como Antoine Roquentin, simplesmente pensando: Eu existo. É isso.

Maringá é tão jovem que é covardia esperar muito dessa cidade. As coisas estão se desenvolvendo. Aos poucos, mas estão. Tem muita gente bacana aqui, e isso me motiva a fincar meu pé nessa terra vermelha.

"A melancolia do neon imenso no céu"

2010 é mais um ano. Seja ele medíocre ou não, é um ano de possibilidades. Nós temos tudo nas mãos. Ou não temos nada nas mãos?

O tempo escorre por elas, isso sim.

6 comentários:

Wilame Prado disse...

Cara, gosto mesmo dos teus textos. Poderia ser cronista hein, que tal? Tem argumentos, erudição, conhecimento ortográfico, sensibilidade e, acima de tudo, humildade literária. Mesmo sendo este, por exemplo, um texto em que você nos informa sobre sua estadia no exterior, em nenhum momento sequer, diferentemente de 97,5% das pessoas que conhecem a gringa, repassou certo grau de exibicionismo ou arrogância. Parabéns, feliz natal, bom ano novo e que 2010 possamos, aqui em Maringá, fazer um algo a mais por este mundo. Você com seu blog e sua banda (espero ansioso ouvir as canções com letras em portugês [Não que eu não goste de Frank The Tank, acho maneiro]) e eu com meus humildes escritos literários e, quem sabe também, com matérias jornalísticas. E que possamos, também, reanimar seu grupo literário. Precisamos urgentemente conversar sobre coisas úteis neste mundo. Cansei de chegar em rodinhas e perceber que o assunto é "Big Brother", "A Fazenda", "Campeonato Brasileiro" ou então intriguinhas da cena musical local. Quero arte, literatura, falar sobre a qualidade do som e da letra de tal banda, quero Filosofia, quero conhecer meus direitos e auxiliar leitores a descobrirem seus direitos também, quero Sociologia e Antropologia, quero humor, mas com inteligência. Cansei de CQC e Pânico. Os tolos da tv brasileira estão morrendo, enfraquecendo a indústria cultural tupiniquim, porém, o que assusta mesmo é ver a geração que possivelmente substituirá Pedro de Lara, Alborghetti, Lombardi, Beto Carrero, Dercy Gonçalves e Leila Lopes, a eterna professorinha. Tudo me leva a crer que a merda criada pela onda da indústria cultural e seus tentáculos, como tv, cinema e agora internet, continuará fedendo por muito tempo. A sociedade continuará sendo alienada e querendo sempre o fugaz. Nunca teremos alguém lendo uma crônica bonita na tv, assim como fazia Sabino ao ler as pérolas de Rubem Braga. Nunca veremos em horário nobre o Charme Chulo, a não ser que eles entrem no ciclo do brega e da moda - o que não condiz com a filosofia daqueles excelentes músicos. Enfim, Zanatta, nesta manhã quente e promissora de domingo, ouvindo um excelente disco chamado "Hoje", da banda Lestics, estou aqui comentando em seu blog faz vinte minutos e, analisando o passado recente, ou seja, lendo as linhas acimas acabadas de serem escritas, percebo o quanto viajei. Desculpe-me. Um abraço.

Rafael Zanatta disse...

Caramba, que bela mensagem.

Fechou bem meu ano, Wilame. Meus sinceros agradecimentos.

E vamos sim fazer algo bacana em 2010.

Um forte abraço, da praia de Camboriu-SC!

lunoronha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lunoronha disse...

Que estranho! Encontrei seu blog por acaso e vi que você passou a ultima virada de ano em Budapeste. Eu estive por lá na virada. Que coincidência, não? E nem vi muitos brasileiros por lá (ao contrário do resto da europa, que eles estão aos montes). Achei uma cidade maravilhosa, a qual com certeza voltarei um dia.
Muito bom o blog. Gostei bastante! Estarei acompanhando!

Enfim, deparando-me com uma coincidência dessas não pude deixar de comentar ;]

Um Beijo!

Rafael Zanatta disse...

Realmente, Lu, é uma grande coincidência. Estávamos lá e talvez até nos cruzamos em alguma Utca.

Volte sempre no blog.

Rafael Zanatta disse...

E um beijo também!

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