Recuperação

Minha última refeição foi um prato de arroz, feijão e frango caipira com molho na quarta-feira, as dez horas da noite. Eu não sabia que ia desejar tanto um prato de macarrão como eu desejei hoje na hora do almoço. Eu olhava para a travessa e para as pessoas almoçando com inveja. Tudo que eu queria era sentir meus dentes triturarem aquela massa, o sal da carne e do molho na língua, e engolir tudo com voracidade, saciando minha fome, que neste momento, queima minhas reservas de energia.

Sorvete, gelatina, sucos, iogurte..Tudo isso é uma delícia quando se tem como refeições secundárias ou sobremesas. Mas quando isso passa a fazer parte da sua dieta principal é totalmente sem graça. Na verdade, quase nada tem sabor. Minha língua ainda está estranha, com uma placa branca cobrindo quase sua totalidade - efeitos do processo de cicatrização da minha garganta, que agora conta um buraco inédito e enorme, previamente ocupado pelas minhas amígdalas. Estas, que estão num saco plástico, cobertas com formol. As vezes eu fico olhando, espremendo-as dentro do saco. É um ritual bem sórdido. Cheguei até a pensar em como elas seriam numa grelha ou chapa. Será que teriam sabor com um pouco de sal e pimenta?

Eu não sei nem por onde começar a descrever a cirurgia e a recuperação. Na verdade, já comecei todo errado, contando detalhes e pensamentos presentes, sem utilizar o famoso flashback: "Tudo começou..." - recurso que utilizo muito em minhas postagens.

O que sei é que o pior já passou. Quinta-feira foi um dia que eu preferia não ter vivido na minha vida, mas aconteceu. A única parte boa foi a sedação pré-anestesia geral. Acho que fiquei chapado um ou dois minutos, antes de desmaiar completamente, sem mesmo saber se tinham aplicado a anestesia geral ou não. Foi muito estranho.

Depois acordei ao lado de duas pessoas numa sala diferente. Uma senhora desmaiada na minha esquerda e um homem, de uns trinta e poucos anos, que mesmo aparentemente inconsciente, lutava com a enfermeira para retirar os tubos respiratórios. Ela relutava e tentava segurar os braços do homem. Sinceramente, não sei da onde aquele cara tirou forças para tantos movimentos bruscos. Ele queria de qualquer jeito retirar os esparadrapos e tubos de seu nariz. Talvez fosse uma reação anormal após a anestesia. O observei assustado por alguns segundos. Tudo foi muito rápido. Dormi novamente.

Acordei pela segunda vez de volta ao quarto 113, onde estava internado o Seu João, um senhor de 78 anos, que já estava lá há quatro dias. Ele era peludo e contava com a companhia do filho. Os dois eram de Jandaia. Conversei com eles das 06h as 07h da manhã. Naquele momento, não sabia que horas eram. Só sentia uma dor enorme na garganta e uma incapacidade completa de engolir qualquer tipo de líquido ou saliva. Eu tinha três panos e cuspia a todo momento sangue, pus, catarro. O pano fedia. Meu nariz, mesmo cauterizado pela cirurgia, ainda conseguia captar alguns odores ruins. A pri estava do meu lado e tinha me trazido um livro, O Estrangeiro, do Albert Camus.

Fiquei sozinho a partir do meio-dia. Toda hora entrava um enfermeiro e checava meu soro. As vezes trocavam, uma outra vez substituíram por um analgésico. Eles perguntava se estava tudo bem e eu apenas levantava o polegar. Na verdade estava tudo péssimo, mas eu já sabia que ia ser daquele jeito, não adiantava fugir.

Foram três ou quatro horas naquela situação deplorável. Dificuldades pra respirar, cuspindo de lado num papo enxarcado, nu debaixo dum roupão verde que deixava minhas nádegas em contato direto com o colchão do hospital. Eu olhava para o livro, pras minhas coisas. Não havia possibilidade alguma de ler. A leitura exige um mínimo de paz de espírito e eu estava numa tormenta.

Quatro e meia o César me buscou no hospital. Vesti minha roupa, peguei minhas amígdalas e viemos embora. Paramos na farmácia pra comprar meus remédios. Me pesei: 79,8 kg. Nem imagino qual deva ser meu peso agora, mas devo estar mais magro. Penso que até terça ou quarta eu perca uns quatro quilos. Não sei. É o que dizem.

Aqui em casa as coisas estão indo bem. Na verdade a primeira noite não foi muito fácil. Levantava toda hora pra cuspir. É impressionante a quantidade de mucosa, catarro, líquidos gelatinosos que se acumulam numa área em recuperação. Dormi meia-noite e acordei seis da manhã, pronto pros meus remédios, que são três. Um anti-inflamatório (8 em 8 horas), um analgésico (12 em 12 horas) e um anti-biótico (um por dia).

Mas preciso confessar que a pior parte não foi o remédio ou a ingestão de líquidos, mas sim a aplicação do cloreto de sódio pelas narinas através de uma seringa. Meu deus, isso é terrível no começo! Funciona assim: você tem que pegar uma seringa de 5 ml (parece pouco, mas não é), encher de soro e aplicar nas duas narinas, ao mesmo tempo que respira fundo. Mas eu não sei, está tudo muito sensível e eu senti extremas dificuldades pra fazer esse procedimento nas primeiras cinco vezes, sendo que meu médico pediu para que fizesse isso de duas em duas horas.

Bom..passei quinta e sexta completamente calado. Hoje disse minhas primeiras palavras, mas não pretendo me comunicar mais. Já senti que não estou pronto. Ainda dói se eu falo, e só utilizo as cordas vocais em situações extremas, quando não consigo me expressar por sinais. Tenho usado uma técnica simples de comunicação: carrego o notebook sempre por perto e utilizo o notepad pra falar com as pessoas.

Estou deixando a barba de propósito. No final da recuperação quero estar com cara de acabado. Magro com barba mal-feita, cabelo despenteado e oleoso. Daí quero tomar um banho, fazer a barba e comer uma bela refeição. Aí sim vai ser o grande retorno!

Agradeço as pessoas que ligaram. Peço desculpas por não ter conversado com vocês, mas é que ficou difícil. Estou sendo bem mimado nesse período. Já recebi visitas do pai, da namorada do pai, do vô, da vó, da sogra, de amigos, e amanhã chega minha mãe pra fazer umas sopas sem sal. É muito dengo!

No mais, está tudo bem. Reclamo assim por reclamar, mas na verdade está tudo indo como esperado. São dias sem comida, de corpo fraco e sem falar, mas é tudo para um bem maior: tomar cerveja trincando sem inflamar a amígdala! Brincadeira, tem outros propósitos mais sérios por trás dessa cirurgia. Eu só esqueci quais são.

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