Crítica do século XXI

Em agosto eu havia comentado aqui no blog sobre Andrew Keen, um jornalista britânico, graduado em História pela University of London e pós-graduado em Ciência Política pela Universidade de Berkeley, que reside na Califórnia, cujo livro O Culto do Amador causou polêmica ao lançar um olhar crítico e ácido sobre a tal "democracia digital" de nossos tempos (a web 2.0).

Há meia hora, li através do twitter da Revista Cult, um link para mais uma entrevista sua. Fui conferir.

Não obstante os ataques aos blogs, à Wikipedia, ao Google, ao Facebook, ao Twitter, eu concordo plenamente com a posição de Keen. Não só concordo, como me vi na obrigação, pelo menos na posição de amigo, de compartilhar suas ideias com você, leitor.

Keen não fala besteiras. Nem menos é um senhor acadêmico que escreve dentro de uma realidade não compatível com suas teses. Pelo contrário, os posicionamentos de Andrew têm mais força pelo fato de ele ser um insider, por utilizar todas essas ferramentas tecnológicas.

Eu não posso falar de Andrew com tanta propriedade, afinal tudo o que sei sobre o cara foi o que observei nesses últimos dois meses através de algumas resenhas on-line, entrevistas, vídeos e matérias (como aquela do G1, citada em Agosto no blog). Mesmo assim, ler ou ouvir parte de seu pensamento crítico já nos traz algumas reflexões interessantes.

Sua retórica é admirável. Gosto da forma que Keen desenvolve seus argumentos. Sua oratória é firme e ao mesmo tempo sarcástica. Pela entrevista não sei se é possível notar esses elementos, mas vou deixar aqui (sem permissão da Revista Cult) um dos trechos finais de sua entrevista:

"CULT - Como você é um dos maiores críticos da Wikipédia, procurei seu nome no site em inglês. No item "crítica à internet", lê-se que você não vê problemas em ser chamado de elitista e que, ao ser perguntado sobre se a internet era pior do que o regime nazista, você teria dito "pelo menos os nazistas não deixavam os artistas sem emprego". Como reage a isso?

Keen - [Risos] É engraçado você ter me perguntado isso, porque esse episódio nos conduz direto ao centro do problema. Trata-se de um ótimo exemplo das distorções e mal-entendidos causados pela cultura da internet. Veja você: Stephen Colbert é um dos comediantes mais populares dos EUA. Seu programa é um dos mais vistos da TV norte-americana, com uma audiência de vários milhões de expectadores. Não é bem um entrevistador, mas um comediante que criou uma persona paródica por meio da qual se apresenta como um entrevistador populista de direita. As entrevistas que faz não são entrevistas sérias, ao contrário, elas têm essa função cômica e paródica. Ele está ali mais para tirar sarro da cara do entrevistado do que outra coisa.

Quando fui convidado para o programa dele, pensei que não perderia nada em ir falar do meu livro, mas logo me avisaram que, se havia uma coisa que eu deveria evitar, era tentar ser engraçado. Assim, uma vez no programa, decidi jogar o jogo cômico de Colbert e também eu interpretei o meu papel. Aí ele me encarou e me disse: "O senhor é um elitista!". E eu retruquei com aparente indiferença: "E o que há de errado nisso?". Depois disso todos me chamam de elitista quando me citam na Wikipédia.

Quanto à referência ao nazismo, obviamente trata-se de uma piada. Colbert colocou satiricamente essas palavras em minha boca, sem que eu as tivesse de fato dito. Em primeiro lugar, sou judeu. Em segundo lugar, fiz estudos acadêmicos sobre a história da Alemanha. Estou longe de ser alguém que não tem ideia do que aconteceu na Alemanha nazista.
Isso mostra o absurdo dessa cultura, na qual sou citado com base em um programa humorístico.

Mostra que as pessoas que escrevem na Wikipédia são pessoas com pouca cultura, que não têm senso de contexto nem entendimento aprofundado do mundo. Mostra ainda que toda essa cultura se enraíza no que chamo de uma comunicação nebulosa. Fico até contente que a entrada virtual sobre mim não tenha sido corrigida porque ela revela a péssima qualidade da Wikipédia.

A meu ver, o maior problema da Wikipédia não é o fato de ela conter equívocos e, sim, o de não haver ninguém que avalie os artigos e assuma a responsabilidade por eles. Eu sempre gosto de lembrar que o verbete da Pamela Anderson na Wikipédia é maior e mais meticulosamente elaborado do que o da Joana d'Arc, ou o da Hannah Arendt."

E é claro, o link para a entrevista no próprio site de origem.

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