Walk out

As canções não são simplesmente canções. Na maioria das vezes, elas possuem um significado e quem a compôs geralmente se deu o trabalho de utilizar determinadas palavras, referências, cadência rítmica, signos, e outros elementos.

Não é uma tarefa fácil.

Eu poderia citar aqui dezenas de mestres nesta arte, como Bob Dylan e outros, mas o que me motivou a escrever sobre isso foi o fato de ter encontrado meu amigo Michel hoje pela manhã. Ele estava de fone de ouvido, e, ao me encontrar, disse:
- Esse CD novo do U2 tá foda..
- Tá mesmo, muito bom. Que música você tá ouvindo?
- Ah...aquela lá, (cantarolando:) there's nothing you haveeee, that I neeeeed so I can breathe
- Ah..Breathe. Nossa, essa é forte. Boa mesmo.

Existe muito preconceito com o U2 por ser uma banda mainstream. Talvez a banda mais mainstream na atualidade. Eles estão no mercado pra valer. Lançam iPods, celulares, DVD todo ano e fazem mega-shows - o último, em Londres, atingiu a maior lotação do Wembley Stadium, com mais de 88.000 pessoas. Mesmo assim, peço que tirem o ódio do lado pop do U2 para a leitura deste texto.

Pois bem. Eu comecei a prestar atenção nessa música quando li uma entrevista do Brian Eno (produtor do álbum) dizendo que Breathe era a melhor música do U2 nos últimos anos.

Confesso que quando comecei a ouvir o álbum achei a música Breathe meio estranha. Não parecia ser a melhor. Mesmo assim, ela foi melhorando a cada audição e depois fui entendendo a sua mensagem. E é esse o ponto que quero compartilhar.

Bom. De cara, nota-se a referência ao livro Ulysses, do irlandês James Joyce, considerado um dos clássicos supremos da literatura universal. O livro conta a história de Ulysses durante um dia de sua vida, percorrendo as ruas de Dublin em 16 de Junho de 1904. O primeiro verso da música é:
16th of June, nine o' five, door bell rings
Man at the door says if I want to stay alive a bit longer
There's a few things I need you to know.

Além da referência à Ulysses, é notável a tentativa de Bono de imitar seus ídolos, tentando cuspir as palavras de forma caótica, como se fosse Dylan, em Subterranean Homesick Blues.

Depois, o verso segue:
Three coming from a long line of traveling sales people on my mother's side
I wasn't gonna buy just anyone's cockatoo
So why would I invite a complete stranger into my home
Would you?

Eu não se a crítica foi feita em cima do pessoal Testemunha de Jeová, ou coisa parecida, mas parece-me que a sacada aqui é dizer: a salvação não virá na porta de sua casa. Não existe tal coisa. Isso é uma perversão. Outra interpretação é sobre os veículos de informação, como os telejornais, que estão sempre noticiando como se previnir, como viver melhor, ditando através do medo e da informação.

Refrão:
These days are better than that
These days are better than that

Every day I die again, and again I'm reborn
Every day I have to find the courage
To walk out into the street
With arms out
Got a love you can't defeat
Neither down or out
There's nothing you have that I need
I can breathe
Breathe now

Esses dias são melhores que isso (these days are better than that). A vida é mais que isso. Com a segunda parte do refrão, me lembrei de Osho, que dizia: "nós temos que morrer antes de morrer". Ou seja, romper esse vínculo mental imposto pelo modelo de vida em sociedade, pelas velhas instituições (os dogmas religiosos, etc)..ou seja, é necessário morrer (ou reconhecer a mediocridade, segundo Ingenieros) antes de morrer. Daí Bono sugere que é necessário morrer todo dia. E renascer.

Segue a música:
16th of June, Chinese stocks are going up
And I'm coming down with some new Asian virus
Ju Ju man, Ju Ju man
Doc says you're fine, or dying
Please
Nine o' nine, St. John Divine, on the line, my pulse is fine
But I'm running down the road like loose electricity
While the band in my head plays a striptease

The roar that lies on the other side of silence
The forest fire that is fear so deny it

Nessa segunda parte, as referências à Ulysses continuam (repare a sequência, quatro minutos depois na Rua St. John Divine), e é possível interpretar essa parte da canção como uma sátira às pandemias. I'm coming down with some new Asian virus. Poderíamos até adequar para Mexican Virus.

É notável que Bono está falando da cultura do medo do século 21. Se o século 20 foi o século do medo da guerra, esta centena será marcada pelo medo de pandemias e terrorismo. Aí vem o pedido da letra, para que o indivíduo se liberte dessa condição, rompa esse paradigma e consiga sair às ruas, sentindo-se vivo:
Walk out into the street
Sing your heart out
The people we meet
Will not be drowned out
There's nothing you have that I need
I can breathe
Breathe now
Yeah, yeah

Cante seu coração. Olha que coisa bonita e rara nesses dias. De fato, não há nada necessário para que possamos respirar. Muitas vezes é difícil encontrarmos paz na existência. Sempre tem problema, sempre tem algo que queremos e que não temos. Nunca está bom. Ninguém está feliz o suficiente. Mas louco é quem me diz, que não é feliz. Mutantes e U2 andam de mãos dadas nesse aspecto.

É uma bela canção. Espero que vocês agoram possam apreciá-la com essa reflexão. Tem um vídeo aqui, com legendas em português. Recomendo a versão do álbum mesmo, pois ao vivo os quarentões do U2 não estão com o mesmo fôlego das apresentações de 1983.

Nenhum comentário:

Mais lidos no mês

Mailing E-mancipação