Tempo de Política


Fazia uns cinco anos que não falava com Amanda Rossi. Talvez mais. A última lembrança que tenho é ter esbarrado com ela numa daquelas festas de vestibular que rolavam ali na Lauro Werneck. Sim, aquelas extintas farras que lotavam a rua, em dias de prova na Universidade Estadual de Maringá.

Perdi o contato com minha ex-colega de Colégio Marista porque ela passou na USP e mudou-se para São Paulo para cursar Jornalismo. De vez enquando ouvia algum comentário do Giuseppe aqui em Maringá ou do Cauê, que mora em São Paulo, dizendo que tinha encontrado a Amanda numa balada da USP. Coisas do tipo.

Talvez a única comunicação que tive foi um e-mail que enviei há dois anos atrás, quando uma menina chamada Amanda Rossi foi assassinada em Londrina. Pensei que tinha perdido uma amiga, mas logo depois percebi que a tal menina Rossi era mais nova e não poderia ser a Amanda de Maringá. O e-mail foi besta. Algo do tipo: "que bom que você não morreu!". Não sei o quão idiota é mandar um e-mail destes, mas acabei mandando.

O fato é: nessa semana a encontrei no MSN e trocamos uma ideia.

Papo vai, papo vem, ela me mandou o link de um projeto pessoal muito bacana, que acho interessante compartilhar com vocês. O tema causa espanto: política. Não só política em sentido lato, mas precisamente o período eleitoral, chamado pelos candidatos de "Tempo de Política".

Segundo as palavras da própria jornalista:
"Dos 5.564 municípios brasileiros, 95,5% tem menos de 100 mil habitantes. Neles vivem 46,4% da população do país e se formam e se elegem lideranças nacionais. A política feita nesses locais é esquecida pelo jornalismo, que raramente se desvencilha do fetiche pelas capitais e olha para os interiores.

Ao longo de um mês, durante as eleições municipais de 2008, percorri cinco pequenos municípios do interior de quatro estados para acompanhar a política local. Encontrei oligarquias familiares que se revezam no poder, compra de votos, favorecimento pessoal de eleitores, apropriação privada da política, desvio de verba pública. Descobri populações apaixonadas pela política, transformada em festa, cidades mobilizadas pelas eleições, associação e Ministério Público combatendo a corrupção.

Em cada parada, uma singularidade. E entre elas, um ponto comum: “tempo de política” é expressão usada para se referir ao período eleitoral. A política – que em essência se manifesta nas relações cotidianas em todo lugar – ganha nas eleições um tempo e um local definido. A democracia vira sinônimo de voto a cada dois anos."

A ideia surgiu quando Amanda estava no Maranhão, e constatou algumas barbaridades no cenário político interiorano. Influenciada pela leitura do clássico "A revolução burguesa no Brasil", de Florestan Fernantes, ela partiu por conta própria (e isso inclui todos os gastos de uma extensa viagem) para o interior do Brasil e analisou cinco cidades.

Rossi descreve as cidades e como estava a situação política de cada local:

"Itabaiana (SE) levou diariamente, durante três meses, multidões às ruas – proporcionalmente, é como se em São Paulo 550 mil pessoas fossem às ruas todos os dias para participar da campanha.

Limoeiro (PE) recebeu a visita ilustre de Aécio Neves, na pré-campanha para 2010. Ali, a popularidade de Lula é tanta que até o candidato à prefeito pelo PSDB usou a imagem do presidente na campanha.

João Alfredo (PE) fez ressurgir na política Seu Zito, nacionalmente conhecido por Severino Cavalcanti, eleito prefeito em 2008.

Delmiro Gouveia (AL) reuniu ingredientes explosivos na receita eleitoral: presença do Exército, assassinato político, prisão de candidato à prefeito e toque de recolher anticonstitucional decretado na véspera das eleições.

Januária (MG) teve sete prefeitos em cinco anos, muitos deles afastados por denúncias de corrupção. A atuação de uma Ong de combate à corrupção tem ajudado a mudar a realidade do município."

Prefeito distribui vale-bolas para crianças: "aqui as pessoas gostam muito de mim, porque reconhecem que eu faço bem para elas"

Vale a pena conferir o trabalho muito bem elaborado pela conterrânea. O feito é inacreditável. Pelo menos me causou muito espanto ver todo o trabalho expendido para a elaboração de um trabalho de tamanha grandeza, sem ao menos estar vinculado com a Universidade de São Paulo. Ou seja, foi verdadeiramente uma prova de espírito jornalístico.

É isso aí!

www.tempodepolitica.com.br

2 comentários:

Bruno Vicentini disse...

Limoeiro! "Eu fui pra Limoeiro e gostei do forró de lá!"

Injustiçado é o Jackson do Pandeiro, Chuck Berry do baião!



E o analfabeto político do Brecht sou eu. Prometi um dia mudar.

Babi disse...

Ah sim, lá eles oferecem carne "murciça" a cada 15 dias em "tempo de política". Pode crer!

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