Cantina central

Eu fico impressionado com a complexidade de ações e coincidências que nos levam à um bate-papo com alguém. Eu parei pra pensar nos detalhes que me levarem a conhecer um cara chamado Gutemberg, hoje na UEM.

Eu estava assistindo a aula de prática de contratos, no bloco 10 (aquele caindo aos pedaços), totalmente entediado com a matéria, que era contrato de aluguel, e morrendo de sono. Pensei comigo: preciso tomar um ar, não aguento mais isso.
- Professora, vou tomar água.

Saí da sala. Tomei um gole d'água no bebedouro. Fui pra frente do bloco. Sentei no banco de concreto e fiquei simplesmente respirando. Fiquei uns três minutos parado ali. Senti que precisava de um pouco de café, mas minha carteira estava no carro. Que merda, não queria andar até o carro pra pegar uma nota de dois reais. Daí me dei conta que eu tinha R$ 0,50 de troco no bolso direito. Levantei e fui pra cantina.

Nenhum conhecido na cantina central. De fato, ali não é meu território. A cantina do pessoal de Direito, Contábeis, Economia e Administração frequenta a cantina do R.U. Esta, era a central. Dei uma boa olhada no painel e percebi que o bendito café não custava 50 centavos, mas sim 80. Que droga. Passei mais alguns segundos encostado no balcão, pensando no que fazer. Ia embora sem o café?

Comecei a fuçar nos meus bolsos, até que achei uma salvadora moeda de 25 centavos no bolso esquerdo - nem lembrava que ela estava ali, a safada. Perguntei pra garçonete:
- Olha..eu tenho 75 centavos e preciso mesmo tomar um café. Não dá pra fazer por isso?
- Ai...tem que ver com ela ali no caixa.

Fui pro caixa.
- Oi..eu só tenho 75 centavos, dá pra sair um café?
- Hum... dá sim. Mas só não conta pra ninguém.
- Pode deixar.

Me dirigi para o canto esquerdo do balcão, seguindo as ordens da garçonete. Pra não ficar sem falar nada, olhei pra máquina de expresso e disse:
- Ah..por isso que aqui o café é mais caro! Vocês tem uma máquina que faz na hora. Lá na cantina em frente o bloco de direito o café fica numa térmica e custa 0,50 centavos.
- Você quer com açúcar ou com direito?
- Oi?
- Ai (risos), você quer com açúcar ou com adoçante?
- Açúcar, por favor.

Comecei a saborear o café expresso da cantina central. Realmente valia uns centavos a mais, cafezinho feito na hora tem outro sabor do que aqueles esquentados em banho-maria da nossa cantina. Nesse momento inicial de degustação chegaram dois homens do meu lado direito. Um deles pediu dois cafés, e logo em seguida comentou com a garçonete:
-É...a gente vai ficando velho, não é?

A garçonete não respondeu. Ficou aquele comentário vago no espaço. Ele fez outro.
-Fazia tanto tempo que não vinha aqui..

A mulher continua muda, fazendo seu trabalho. Senti que, parado ali sozinho tomando um copo de café, precisava responder o comentário.
- Que ano você se formou?
- Em 1989, em Psicologia.
- Aposto que as coisas quase não mudaram por aqui.
- Não..mudaram sim! Você faz que curso?
- Direito.
- Pô, eu me formei em Direito também.
- Então você atua na área de Psicologia forense?
- É, eu trabalhava como advogado na área penal, principalmente em júris.
- Bacana, hein.
- Mas larguei tudo. Saí do Direito, saí da Psicologia. Era um estilo de vida que estava me destruindo. Estava acabando comigo, com meus alunos, tudo..
- Sério?
- Trabalhava com muitos crimes passionais, fazia a defesa do réu. Defendia criminosos, era uma crise moral constante. Eu sabia que o sujeito tinha matado a mulher, mesmo assim trabalhava pelas atenuantes.
- É..é uma crise moral mesmo.
- Minha vida era uma farsa. Deixei o Direito, mudei pro sítio e agora trabalho com agriecologia, produtos orgânicos.
- Pô, que dez! Meu pai também está nessa área! Ele se formou aqui na UEM em 1987, talvez você conheça..
- Quem é teu pai?
- Odacir Zanatta, conhece?
- Não..ele é da Emater?
- Não..agora ele passou no concurso da IFPR, vai pra Curitiba trabalhar com Agriecologia... mas e agora, você faz o que?
- Trabalho com alguns produtos orgânicos, eu, minha mulher, agora eu tenho um filho de 01 ano. Esse aqui é meu funcionário, trabalha com a gente lá no sítio.
Nessa hora, o sujeito que eu estava conversando se virou para o outro, um senhor duns 50 anos, e começou a fazer vários gestos, ao mesmo que falava que meu pai trabalhava com Agriecologia. O velho respondeu em vários sinais e alguns sons incompreensíveis. Daí que eu percebi que ele era surdo-mudo.

Na hora, passou uma mulher, e o ex-advogado a chamou pelo nome:
- Karen!
- Gu, quanto tempo!!
Os dois começaram a conversar, e eu comecei a conversar (não me pergunte como, mas eu consegui) com o senhor surdo-mudo, funcionário do sítio. Ele me explicou em sinais que alguns fertilizantes machuraram a pele da sua filha. Também falou que ele sempre trabalhou na roça, e que seu pai, seu avô, todos trabalhavam na roça. Comentou, aos risos mudos, que o ex-advogado pegava pesado na enchada, que trabalha mesmo no braçal. Eu só ria e concordava, tentando fazer sinais e falando pausadmente para uma possível leitura labial.

Era hora de voltar pra aula. Interrompi os dois.
- Viu, preciso voltar pra aula. Prazer em conhecê-lo.
- Prazer, meu nome é Gutemberg.
- Rafael.
- Bom Direito, Rafael.
- Boa jornada pra você!

Cumprimentei o simpático senhor surdo-mudo.

Caminhei com menos sono de volta para o bloco 10, refletindo sobre como a conversa surgiu do nada - numa pausa pra café teoricamente não era pra ter existido. 

Mas existiu.

Um comentário:

prisci disse...

Muitomassa, interessante edá até um conto se contado com mais detalhes, e inserida uma "epifania a la clarice (?).

mas o legal mesmo foi essa parte que vc escreveu NUM BLOG que todo mundo lê:
"Fui pro caixa.
- Oi..eu só tenho 75 centavos, dá pra sair um café?
- Hum... dá sim. Mas só não conta pra ninguém"


"não conta pra ninguém"
mas se quiser escrever num blog tá tudo ótimo!

iuehiuehiuhe troféu jóinha.

te amo

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