Televisão maringaense

Cheguei mais cedo da UEM, pois havia feito a temida prova de Direito Civil do quarto bimestre (que preciso de 4,3 depois de uma queda livre de notas: 9,8 - 5,9 - 4,0) e precisava receber o pessoal das Casas Bahia. Eles viriam para entregar a lavadora de roupas que Odaça comprou. OK, mais trabalho para mim - responsável pela "limpeza" da casa.

Como estava com preguiça de limpar a casa, liguei a televisão e comecei a assistir aos programas maringaenses. Que vergonha, que bizarro. Primeiro assisti ao programa "Cantos e Contos", com Mirna Lavecc (acho que é esse o nome). No programa de hoje ela estava entrevistando Frank Silva, dono do O Diário do Norte do Paraná, líder de vendas no noroeste do Paraná há décadas. Cara, que entrevista mesquinha, que discussão barata. As perguntas que essa Mirna fazia eram de uma futilidade de socialite absurdas. Ela conversava como se fosse amiga íntima do Frank e visivelmente não era. O sujeito estava até sem graça com tantas perguntas e pitacos burgueses que Lavecc fazia. Coisas do tipo:
"-Você se casou em Las Vegas, não foi Frank?
-Sim, me casei lá.
-Ah, lá é um luxo. Adoro Las Vegas, você contratou qual banda para o seu casamento? Foi aquele grupo que toca Elvis?
-Não, não..foi algo bem íntimo, algo pequeno mesmo.
-Mas nem uma banda pra animar? Nem gente?
-Não..algo pequeno mesmo.
-Mas você é um homem de muitos amigos, muitas pessoas querem ser amigos seus. Você deveria fazer uma festa para todos aqui em Maringá..blablablabla"
Enfim, deu pra sacar o nível de futilidade, não? Depois disso foi a hora de Mirna falar dos políticos famosos que eram amigos de Frank, como Figueiredo, Gueizel, Castello Branco, Collor.. com perguntas extremamentes superficiais, basicamente tipificando a escala de poder e influência dele, sem nenhuma discussão com profundidade. Enfim, algo que me irritou pra caramba.

Depois desse maravilhoso programa, mudei pro canal 9 e estava passando "Maringá Urgente". Confesso que várias vezes eu assisto esse programa de tão tosco que é. A voz do apresentador é muito forçada. A manipulação mental do povo, no estilo "Brasil Urgente", junto à filosofia americana "Law e Order" é algo assombroso. O poder de influência gradual que um programa desses exerce nas classes baixas é incrível. As notícias eram todas de um ou outro rapaz de Sarandi que foi preso furtando uma loja ou com porte de arma, ou uma maravilhosa notícia sobre a Blitz que a Polícia Militar realizou sábado a noite na Avenida Tiradentes. Sem brincadeira, a matéria foi somente sobre a blitz, sendo que ela resultou em 5 apreensões de veículos e algumas notificações. Enfim, não entendi o porquê da matéria.

Eu não sou jornalista, não sou acadêmico de jornalismo e não sou profundo conhecedor dos escopos, objetivos e formas de se fazer jornalismo. Mas o que se vê em Maringá hoje em termos de televisão não possui função social nenhuma. E eu realmente acredito no poder formador da mídia, na construção do cidadão através da televisão e dos jornais e revistas. Nossos programas não podem ficar nesse baixo nível, visando o telespectador medíocre.

Faço um apelo aos jornalistas/blogueiros/acadêmicos que tem seriedade: tomem de assalto a televisão maringaense! Rompam esse paradigma populista que não ajuda em nada o povo.

Dá pra contar no dedo os bons programas regionais. Um deles é o "Opinião" do Gilson Aguiar. Entrevistas interessantes, questionamentos sérios, produtivos, com gente interessada em transformar essa cidade num local melhor.

Humm..e sabe o que foi o pior de tudo hoje vendo televisão? Foi assistir por quase duas horas o debate na Tv Senado da Comissão do Estatuto da Igualdade Racial, um debate riquíssimo de informações, com professores universitários, deputados, líderes sindicais, líderes de ONGs, e ver as severas críticas feitas por um dos professores à mídia brasileira, que está silenciando a discussão do projeto de lei do Estatuto da Igualdade Racial! Aposto que 99% da população nem sabe que isto está sendo discutido! Porra, nem eu, acadêmico de Direito que me esforço para saber o que está acontecendo ao meu redor ou sobre mim (poder estatal) sabia o que era isso. E é de uma importância extrema. E ficou claro o porquê: quanto menos discutido esse projeto de lei, maior é a possibilidade de ele ser rejeitado. Projetos de lei são assim, quanto menos discutido, pior. Foi assim no caso da Lei Seca em Maringá. Discussão baixa e uma jogada legislativa bizarra: foram feitas várias propostas de emenda e na hora da votação elas foram retiradas, tornando a lei esquelética novamente. Retornando o raciocínio, o pior foi ver essa discussão rica na Tv Senado e passar os canais, principalmente os canais de Rede Globo (Globo news, regionais, etc.) e nem sequer ver um comentário sobre isso. Depois entrei na UOL e não encontrei nada. Porque né? Talvez porque a UOL seja aliada do Grupo Abril, dona da Revista Veja, também parceira da Rede Globo? E quantas vezes a Veja enfatizou a discussão dos projetos de lei de igualdade racial num plano neutro? Nenhuma, que eu saiba.

O acesso à discussão está sendo encobertado. Silenciado. É tudo muito triste.

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